sexta-feira, 16 de junho de 2017

“EU FUI ZOGÁ PÉDINHA NO LIU CO’O VINITO!” ou OS BONS ARES DA USINA

“Seu Wenilton, seu Wenilton!...” ― Além dos aviões de carreira ― Caminho suave ― No pesqueiro ― Epostracismo ― Dragonflies in the air ― Dragonfly ou Demoiselle? ― Um Dragon Fly que não me atraiu... ― Como dar um caldinho num tiziu... ― Foi justamente aí que o tempo fechou!... “Evil Ways”... ― “Ninguém põe a mão nessa porcaria!” Hóspedes em tratamento ― Dente de Leite — Django usineiro... — Um mal-entendido ― A cura ― Café com leite ― “Os discos voadores prometeram voltar a São Paulo” ― Pelé no cosmos... ― Anjo tutelar

“Sem rumo, sobe e desce, gira à toa,
Fixa-se no ar e — alada flecha — avança.
Só quando a terra de astros se coroa,
"A dançarina alígera descansa”.
(A libélula. Gustavo Teixeira. 1925)

“Muitas vezes julguei ter sido
castigado injustamente ou com
excessivo rigor em relação à
falta cometida. Dessa vez o castigo
foi merecido, correspondente
à gravidade do erro praticado.”
(Memórias de outro tempo —
1904-1954. Francisco de Britto, 1980)

“Mamãe achou melhor que eu
passasse uma boa temporada na roça.
O médico deu esse conselho, dizendo:
‘Vale mais uma semana de ar
saudável do campo do que meia
dúzia de fortificantes caros’.”
(Saudade. Thales Castanho
de Andrade. 1919)


O Walter, na época 
...daí que eu estava eu matutando umas coisas cá dentro do último andar do edifício humano, cismando com o tal do tempo... sim, o tempo, o tempo impiedoso que flui incessantemente ao seu bel-prazer independentemente do que quer que façamos para tentar freá-lo. No entanto, há um consenso hoje entre os cientistas que se ocupam de seu tema, ou seja, a Cronologia, que, quando adultos, uma vida monótona, rotineira e repetitiva faz com que ele se acelere, de modo que, p. ex., os 10 anos de uma infância bem-vivida e cheia de acontecimentos parecem muito mais ricos, extensos e duradouros que um período semelhante na vida adulta (indeed). Mas há quem diga que a nossa percepção do tempo é uma ilusão criada por nossa mente (quizas, quizas, quizas....). Ainda assim, há um antídoto para isso, que (dizem também...) seria, então, diversificar as atividades, fazer coisas jamais sonhadas, aprender algo novo, mudar o visual, fazer algum curso, ir para outros lugares diferentes, viajar etc. Por meu lado, acredito que relembrar e registrar histórias também ajude a tornar a vida menos monótona, e, pensando bem, isto não deixa de ser uma forma especial de viajar, e viajar no tempo, ressalte-se...

Isto posto, amigos, permitam-me então aqui narrar duas curiosas e algo semelhantes histórias desses bons tempos pueris em que o deus Cronos fazia a areia da ampulheta passar de modo muito mais lento e sutil de um cone para o outro, enquanto que o dia-a-dia era repleto de instigantes descobertas e acontecimentos — falo daquela idade embriagadora da infância em que as crianças descobrem o mundo à sua volta, e ele as recebe de braços abertos e cheio de novidades.

Sem mais demora, às histórias, então!


“Seu Wenilton, seu Wenilton!...”

Um tal de Estrupício...
Lembro-me que, em nossos primeiros anos ali na Usina, sempre que aprontávamos alguma traquinagem, o indício de que íamos ser repreendidos, ou mesmo apanhar, podia ser identificado por dois sinais muito claros, que eram os modos como nossos pais se dirigiam à nós nestes momentos. Um deles, era quando nos chamavam pelo nome e o nome do meio — que era a única ocasião em que falavam assim —, como, p. ex.: ‘Wenilton Luís!”; o outro, era quando nos tratavam pelo pronome de tratamento caipira, o popular “seu” — exemplo: “Seu Wenilton, seu Wenilton!...”. O primeiro, usado apenas pelas mães, seria um modo elegante de se referir ao filho não fosse ele pronunciado de forma tão imperativa e severa em momentos críticos. O segundo, de uso exclusivo dos pais, apesar de também ser uma forma em que se combina carinho e respeito pela pessoa com quem se fala ― no caso era uma severa advertência, seguida não raro de uns belos tapas na bunda ou puxões de orelha, segurada tão firme quanto se segura a alça de uma xícara cheia de café...

E foi por este último modo, que meu pai, um belo dia, se dirigiu à mim, isto, após eu ter envolvido minha irmã Luciana — muito pequena ainda —, numa perigosa aventura (há razões em minha personalidade que justificavam os meus gostos e tendências naturalistas já nesta idade precoce, e que, por isso mesmo, debutante que era, levava-me a cometer desatinos e, depois, sofrer as duras consequências, como se verá...).
                                                                               
fato se deu no tanque do meio, o açude d’água que ficava ao lado da colônia de baixo, ótimo lugar para se pescar e tarrafear (para adultos, entenda-se desde já).


Além dos aviões de carreira

Era uma ensolarada tarde outonal. Os céus e o espaço, desde o Sputnik e o cosmonauta Yuri Gagarin, andavam por povoados engenhocas humanas voadoras, e, não nos esqueçamos, no memorável ano anterior, a célebre Apollo 11 levou o primeiro ser humano a pousar na Lua. Mas, nos bons ares da Usina, havia algo além dos aviões de carreira (que, diga-se, aliás, raramente passavam por ali) e das espaçonaves (jamais vistas à olho nu), algo que não iria pousar na Lua, mas roçar de leve uma engenhoca humana pertencente ao meu pai, deixando nela algo que não cheirava bem... Mas o que havia de além nos ares da Usina (perguntar-me-ão os amigos)? Acalmem-se, acalmem-se, que meu pai em breve esclarecerá (patience are highly recomended!).

*   *   *

Mais precisamente, o fato se seu na última semana de um mês abril — o mês em que se desesperam os automobilistas, pois certos insetos ultracoloridos andaram revoando longe dos cursos d’água, dando uns suspeitos bordejos pelos recantos da colônia de baixo.

A DKW do Walter, três anos antes.
Daí que o meu pai falava justamente disso em conversa com seu amigo de escritório, o Lucrédi.

― Olha isto, Lucrédi, olha só essas manchinhas no capô da DKW!

― Mas quem fez isto?

― Vi umas libélulas pousando aí ontem, e depois apareceram essas manchinhas. E elas não saem de jeito nenhum! Não há meio de removê-las! Acho que queimou a pintura mesmo! Bichinho desgramado!

― Então elas fizeram cocô na lataria?

― Mas será que é cocô mesmo, Lucrédi?

― Vai saber...

― Lucrédi, meu amigo, encerei esta lataria ontem mesmo! Tava um brinco! E agora vem esses bichinhos enxeridos estragar tudo!

― E esse cocozinho com o carro exposto ao sol quente deve queimar a pintura mesmo. Será que tem ácido no cocô?

*   *   *

Pobres e inocentes libélulas, iludidas em plena excitante época de revoada e acasalamento! Atraídas pelo reflexo no Sol nos automóveis, creem elas, lá nos meandros do seu cerebrozinho, ser a lataria lisa e reflexiva algo como a superfície de um lago ou rio qualquer, onde, normalmente, costumam desovar... Daí, as manchas nos carros...

― Tava reparando aqui, Walter, mas está lataria aí está tinindo mesmo, hein! Tá parecendo um espelho d’água, home!

― Acho que esse é o motivo de elas terem feito isso. Já reparou quando você vai pescar que elas costumam encostar a bunda na superfície do rio? Como é que é o outro nome que se dá à elas: lavandeira, né?

― Antes fosse lavanderia, né Walter...

O Lucrédio, 2015 
― Esse bichinho é irritante até na hora de pescar, Lucrédi: você arma a vara na beira do barranco e o fiadamãe vem e pousa bem na ponta da vara!... Quando eu fui visitar o Rio Piracicaba uns três anos atrás com minha família, um pescador de lá, o seu Lazinho, me disse que se uma libélula sentar na ponta da vara pode ir embora porque não vai pegar mais nada.

― Olha só! Mas, Walter, a molecada não costuma chamar elas por outro nome também? E falando meio que com o canto da boca, murmurou: — lava-cu?...

― Lava o quê?

― Deixa para lá...

Mas, deixemos de divagações naturalistas, amigos e voltemos à história em questão: não o disse ainda, mas era o final de um domingo, dia de ventos amenos, mas de um céu a princípio muito, muito azul, quiçá aquele mesmo azul da Terra que o citado Gagarin viu do espaço cerca de 10 anos atrás.


Caminho suave

A Luciana brincava sozinha no gramado entre nossa casa e a do vizinho.




Menino ainda, orçava eu pela casa dos oito anos, e minha inocente irmã, emplacando nos três. Apesar do citado rio ser próximo à nossa casa, acreditava que a mana nunca havia se aproximado dele, conhecendo-o, por assim dizer, mais a fundo. Assim, inocentemente, resolvi apresentar-lhe o tanque do meio, e antes mesmo que eu a convidasse para ir ali, ela se antecipou dizendo que queria vê-lo. Com a boca cheia de um pedaço de pão dado por nossa mãe pouco antes, ela falou.

― Vinito, quero ver o rio de perto!

Sem avisar ninguém, coloquei ela de cavalinho em minhas costas e partimos.

— Vamos, então! 

Passando em frente à casa dos vizinhosouvimos uma música lindíssima que vinha lá do rádio da sala da dona Cida.

― Olha que música linda, Lu!

― É, Vinito, a música é bonita.

A Sonia, que neste momento estava na área da casa, me ouviu e concordou: 

― Linda mesmo, Wenilton!

― Que música é?

― "Hey there lonely girl", com um tal de Eddie Holman. 

(Sim, sim, amigos, desnecessário dizer que a música pop que imperava nesta época de minha formação era das melhores que se fazia em todo o planeta, que, nas décadas de 60 e 70, a música mundial em geral ainda não sofria o fenômeno da cultura de massa, com seu padrão “descartável”, “enlatado” ― ou pré-fabricado  e de curta duração, enfim, músicas de gosto duvidoso, feitas para não permanecer.)

Minha irmã sorriu para a Sonia.

— Oiiii, Lu!

― Fala oi para a Sonia, menina!

― Oiiii!

― Vão dar um passeio pelo rio, Wenilton?

― Como é que você sabe?

― Longe é que vocês não vão...

― Então tchau, Sonia!


Residências de Walter Daltro (escritório na época da foto) e da família Lima; ao lado o cipreste. À extrema direita, o pé de Cordia.

Parei diante do cipreste que havia pouco adiante, tirei um pouquinho daquela resina cor de âmbar que o tronco dessas árvores normalmente exsudam, enrolei um pouquinho entre os dedos e disse:

― Cheira, Lu.

Antes de cheirar, ela olhou a bolinha cor de mel entre meus dedos e perguntou:

― Hummm, o quê que é isso, Vinito! É caramelo?

― Não, sua bobinha: é um líquido que a árvore solta, mas não é de comer não.

― Annnn...

― Ahh, Vinito, credo! Isso gruda no dedo!

― Depois você lava a mão lá no rio.


No pesqueiro

Descemos com dificuldade o barranco, eu descalço e a Lu com seu chinelinho que ia enroscando em ramas de capimA pequena não é tão alta a ponto de alcançar a flor de um pequeno girassol que cresceu ali. Me presto a esse serviço e apanho para ela.

― Toma, Lu.

― Bigado.

Aranhas d'água
Havia um pequeno pesqueiro no lugar, chão de terra batida, o barranco da margem delimitado por algumas tábuas superpostas presas por estacas, o que, além de servir de apoio à varas de pescar enfiadas no chão, evitava que se escorregasse rio adentro. Havia também um rústico banco de madeira.

― Senta aqui, Lu, que está limpinho.

Ela distraiu-se e rapidamente me sentei no lugar...

― Ah!

― Quem foi à Limeira perdeu a cadeira, Lu!

― Ah, seu bobo!

Felizes, sentados lado a lado, ficamos tranquilos apreciando o cenário, olhando as coisas bonitas que ali havia: as andorinhas-do-rio vindo matar a sede à tona d’água, um beija-flor aqui, outro acolá esvoaçando sobre as pequenas goiabeiras brancas das margens, a piririca dos lambaris que riscavam a superfície de quando em quando, a babugem formada nas margens pelas marolas das ondas, da qual um bando de aranhas d'água se esquivava.


Em vista aérea, o palco da história, dois anos depois do acontecido.

Beri-silvestre

— Olha que planta bonita, Vinito!

— A dona Cida disse pra mãe que isso se chama beri-silvestre, planta de beira de rio. Serve para fazer colar.

Peguei uma de suas belas bagas cor de vinho, abri e coloquei na palma da mão da Lu as brilhantes sementes pretas que há dentro.

— Que bunitinho, Vinito!

— E essa outra aqui, o que é?

— Essa é conta-de-rosário. Sabe aquela cortina de sementinhas lá da cozinha de casa?

— Sei.

— É feita das sementes desta planta.

— É mesmo! Agora lembro! 


*   *   *

Antes de enveredarmos pela história adentro, se faz necessário uma música adequada para o cenário, e recorro ao inspirado Ashera (Anthony Wright), tecladista australiano de Ambient Music, que, sem o saber, em suas cinco magníficas obras, fez a trilha sonora perfeita para as histórias e cenários descritos nestes trabalhos memoriais! Ilustremos, pois, a presente história com a belíssima e tocante "Cobalt Friends"!






*   *   *

Era linda a vegetação aquática deste recanto: aqui e ali os comuníssimos aguapés, alfaces e pinheirinhos d'água; ninfeias aflorando à superfície; próximos às margens as submersas elódeas e samambaias aquáticas dançando languidamente ao sabor da suave correnteza que corria ao fundo; as delicadas salvínias e lentilhas; as arredondadas açariçobas cujos caules finíssimos desapareciam nas profundezas do rio. 

1- Elódea; 2- Salvínia; 3- Ninféia; 4- Samambaia aquática; 5- Lentilha d'água; 6- Pinheirinho d'água; 7- Agua-pé; 8- Alface d'água; 9-Açariçoba.

Em certo momento, ensinei a mana arremessar pedrinhas na água para ver os círculos concêntricos se formarem.

― Joga fora esse resto de pão, Lu, e pega esta pedrinha para jogar na água.

Quando ela se preparava para jogá-lo, adverti:

― Nããão, Lu: tem que dar três beijinhos no pão antes de jogar fora!

― Porquê, Nito?

― O pão é sagrado, Lu, é o corpo de Jesus, e é pecado jogar fora sem dar três beijinhos nele antes!

― Éééééé?! 

― Sim, três beijinhos.

Mal ela jogou, um bando de lambarizinhos enxameou na superfície.

― Olha os peixinhos, Lu! 

― Nooossa!

― Quando a gente morava lá na cidade, antes de você nascer, o pai levava a gente para ir pegar peixinhos com peneira num rio que tinha num pasto lá para baixo de casa!

― Vamos buscar uma peneira em casa, então?!

― Deixa para outro dia; agora está muito tarde! E a gente tem que vir com o pai aqui, pois o rio deve ser fundo nessa margem.

― Ahhhh!

― Eu me lembro também, Lu, naquele dia caçando peixes com a peneira, de ter visto pela primeira vez boiando na água uma mancha colorida bonita que tinha as cores do arco-íris. Era lindo aquilo, Lu.

― Arco-íris? Que é isso, Vinito?

― Da próxima vez que tiver uma chuva com sol eu te mostro, Lu.

― Chuva com sol?!

― Você vai ver!

(Anos depois, vim a reparar que uma porção de óleo ou graxa desfeita na água provoca a decomposição das cores igualzinho ao que ocorre no arco-íris, criando uma mancha onde se pode notar essa bela irisação.)

― Então, Lu, joga essa pedrinha na água agora.

Ela jogou.

― Olha os círculos redondinhos que ela faz, Lu, um atrás do outro!

― É meeeeemo, Vinito! Que bonito!

Querendo se dessedentar à tona d’água, uma andorinha se aproximou num voo rasante.

― Olha, Lu, uma andorinha!

― Vou tacá uma pédinha nela, Vinito!

― Não, não pode! Não presta matar andorinha! Elas são aves sagradas! Matar andorinha é pecado!

― Mas o pão tamém é sagrado, Vinito, e eu zoguei ele no lio!

Ri-me da inocente confusão de minha irmã.


Epostracismo

Empolgado com a alegria de minha irmã, mostrei à ela uma outra brincadeira algo semelhante. Vocês amigos, hão de se lembrar  entretenimento tão comum na infância das crianças criadas na zona rural  e quem de nós não brincou disto quando criança? De tão antiga e universal, a brincadeira tem até um nome, e nome esdrúxulo, feio mesmo, o nome que batiza este subcapítulo!...


Para quem não conhece o tal de Epostracismo, ele é o nome com o qual injuriaram esta inocente brincadeira infantil de atirar pedras redondas e achatadas na água, de maneira tal que, em frações de segundos,  ela deve ricochetear várias vezes na tona d'água. Desse modo, a brincadeira é uma competição entre criançase ganha aquela que consegue fazer a pedra ricochetear o maior número de vezes. Em algumas regiões do Brasil as crianças dizem que o total de batidas da pedra na água corresponde ao número de filhos que se terá, mas nós, na Usina, apenas soletrávamos as divisões da família.

― Lá vai, Lu! Fica olhando!

Me abaixei um pouco, me inclinei lateralmente e atirei a pedra. Enquanto ela saltava sucessivamente na superfície, eu ia dizendo:

― Vô, vó, pai, mãe, filho, filha, neto, neta, bisneto...

― Aiii, que legal, Vinito! Tamém quero zogá uma!

― Para a sua idade é muito difícil atirar a pedra certinho, Lu. Quando você ficar maiorzinha, eu te ensino.

― Ahhhh, seu chato!...



*   *   *

Tonholi, sabe qual o nome daquela brincadeira de tacar pedras achatadas na água para ela ricochetearem?

― Mas isto tem nome?!

― Sim, descobri esses dias numa enciclopédia.

― E qual é?

― Lá vai: e-pos-tra-cis-mo...

― O quê? Epostracismo! Caramba, que nome feio!

― Pois é...

― Já pensou, Wenilton, você chega num amigo seu e diz: “Vamos brincar de epostracismo?” e ele, com os olhos arregalados  diz: “Brincar do quê?!”

― Há, há, há!... 


Dragonflies in the air


Início da irrupção de libélulas
Mas o que realmente nos fascinou nesta tarde, amigos, foi o grande número daquele mesmo insetos odiados por meu pai, que, inesperadamente, surgiram em grandes bandos sobre o rio, onde ficaram revoando em turbilhão por sobre o rio. Eram centenas!

— Olha, Lu, quantas libélulas apareceram!

— O quê?

Inicialmente, a cena nada tinha de extraordinária, mas, depois, a coisa se tornou meio que cinematográfica, digna até de um programa sobre vida selvagem.

Irização das asas de uma libélula
Falei em centenas antes, mas eram milhares e milhares de libélulas, e vinham de todos os lados, surgidos não se sabia de onde. Ficamos espantados com o fenômeno que, décadas depois, vim a saber que era a tal da “irrupção” (outro nome feio, não é, amigos?). Mas o fenômeno era mais um daqueles incríveis espetáculos da vida selvagem que, ali na Usina, a natureza parecia ter criado apenas para o regalo das crianças que amam a vida selvagem. Os grupos, em voos ondulantes, ora subindo ora se aproximando das águas, pareciam voar desordenadamente, mas passavam a estranha impressão de que estavam “patrulhando” o tanque e seus arredores.

Vale lembrar que, dentre os insetos que frequentam as coleções d’água nesta abençoada terra, poucos são atraentes como esses verdadeiros símbolos de pureza da água que são as libélulas. Alguma vez notaram, amigos, o voo elegante e controlado, as cores vivas, ora acetinadas, ora esmaltadas que adornam os anéis de seus corpos esguios e flexíveis? Já deram um close na fantástica e brilhante irisação que saem de suas asas transparentes ao mais leve raio de sol?

Uma pausa aqui para inserir uma trilha para o cenário, canção Flower & Power, movimento que, por sinal, ia de vento em popa na época:





— Que lindo, Lu! Olha isso! Tem bicho demais voando!

— Noooossa, que bonito, Vinito!

― É tudo libélula, Lu!

― Lilélu...lilé...

― Libélula, Lu. Fala devagar: li-bé-lu-la.

― Li-lé... Li-bé... aaaaah, não consigo!...

― Há, há, há!... Quando você ficar maiorzinha, vai falar certinho, mana.

— Éééé?...

— Aiiii!

— O que foi, Vinito?

— Deu mau-jeito no pescoço. Acho que é torcicolo.

— Torci o quê?

*   *   *

Irrupção de libélulas
Ventava, mas era ainda uma brisa amena; porém, o céu do lado Leste começava a se apresentar cinzento e ameaçador. Mas, antes de dar continuidade à história, permitam o amigos que eu, novamente, me estenda um pouco mais nas explicações e acrescente algumas linhas sobre o fenômeno. Décadas mais tarde vim a saber que algumas sociedades acreditam que as libélulas simbolizam a emoção e a paixão dos primeiros anos de vida e o equilíbrio e clareza que se adquire com a idade (muito pertinente...). Danado, este inseto que, segundo os cientistas, frequenta este planeta há cerca de 300 milhões de anos, muito antes dos dinossauros. Dizia minha avó que as crianças que são mal-educadas, mentirosas e que aprontam muito, as libélulas aparecem à noite em suas camas durante o sono para costurar-lhes a boca!... Soube também, através dos livros de Folclore que, segundo a crendice popular, estes ajuntamentos de libélulas são sinais evidentes de chuva próxima; mas se choveu este dia, é fato de que não me recordo. De todo modo, o tempo iria fechar depois, mas não de modo como imaginava, infelizmente...

*   *   *

Minha irmã estava tão fascinada com aquela beleza toda que parecia se abandonar de corpo e alma à magia do instante, que para ela, menininha que era, o cenário se revestia de características de um sonho encantado. Desnecessário dizer que, comigo, a coisa não foi muito diferente... (ah, ninguém, ninguém — nem mesmo eu —, podia imaginar as maravilhas que já estavam se processando em meu cérebro com tudo o que eu vivia, via, ouvia lia nestes dias de instigantes surpresas e descobertas que foram os meus primeiros anos de Usina).

― Que lindo, Vinito, que lindo!

― Bonito mesmo, né, Lu! Mas...

― Vinito...

— Quêêê?

— Tô cum frio.

― Tá cum frio? Bate a bunda no rio!

 A mana riu gostosamente, e perguntou:

― E se eu tivesse cum calor?

― “Bate a bunda num tambor!”...

― Ih, ih, ih!...

O tempo mudando justificava a friagem.

 Olha, Vinito, que esquisito: vai chover e tá fazendo sol!

― Taí, Lu, o que eu te falei agora a pouco: sol e chuva, casamento de viúva, chuva e sol, casamento de espanhol.

Sem prestar atenção ao que eu disse, a Lu interviu:

― E o arco... arco o quê?

— Arco-íris, Lu. Olhei para o céu para ver se havia um e...

—  É, Lu, que pena: não está aparecendo nenhum.

Resolvi continuar com a brincadeira:

― tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem; o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo, tempo tem.

E ela, com os cotovelos apoiados no joelho e sustendo seu rostinho entre as conchas das mãos, exclamou:

― Nooossa, Vinito! Quiquiéisso quiocê tá falano?! Prá quê tanto tempo assim?!


Dragonfly ou Demoiselle?

A Mariner 7
Por esses dias, uma daquelas sondas que eu vim a conhecer nas figurinhas do chiclete Pluft no ano anterior — no caso a Mariner 7 , havia sobrevoado o polo sul de Marte fotografando-o.  

— Viu, Wenilton, que a Mariner 7 chegou em Marte?

— Não, Tonholi, não estava sabendo.

— Se a gente pudesse ver isso pela televisão, hein.

— Quem sabe um dia...

Neste momento, dois jatos surgiram nos céus da Usina para dar início aos seus treinamentos.

— Lindo esse jato novo da Força Aérea, hein, Wenilton.

— Que jato é?


Santos Dumont e o Demoiselle, 1909
— É o T-37 Dragonfly.

— Dragonflai. O que quer dizer, Tonholi?

— Dragonfly é libélula! Dá para acreditar? 

— Até que o corpo dessas mais grandonas lembra um pouco ele... ah, Tonholi, sabia que a tradução de Demoiselle, aquele aviãozinho do Santos Dumont, é libélula?

― Sério?! Que legal!

― Também achei!


― Mas você percebe que os nomes dos dois aviões não poderiam ser trocados?

― Como assim?

― Dragonfly não cairia bem para o Demoiselle e vice-versa. Dragonfly seria um nome muito pesado para o leve Demoiselle, e Demoiselle seria um nome muito tetéia para um jato. Concorda?

― Verdade. Mas, você viu, Wenilton, que os Dragonfly vêm sempre aqui agora? Eu fico até com torcicolo de tanto observar eles treinando.

— Que coincidência: eu tive torcicolo um dia desses vendo libélulas.

— Vendo libélulas?! Que azar! Antes fosse os Dragonfly, né.



Dragonfly T-37C, anos 60-70
— Ah, Tonholi, mas você precisava ver que bonito foi aquilo! Até sonhei com elas, mas foi um pesadelo! Sonhei que uma delas veio costurar a minha boca durante o sono!

— Ô louco, libélula costurando a boca! Caramba, que pesadelo, hein! Parece castigo!

— Deve ter sido, porque eu aprontei uma daquelas nesse dia... E eu tenho mania de sonhar com insetos, e, vira e meche, eu sonho com mariposas.

— Isto não acontece comigo.

— Me lembro do primeiro sonho que tive com uma: morava lá na cidade e acordei em meio ao pesadelo cheio de medo chamando por meus pais!...


*   *   *

"Irrupção" de Dragonflies...
Ao cair da tarde, as libélulas foram voando cada vez mais baixo e passaram a pousar onde quer que houvesse touceiras de capim e pequenos arbustos. As que vinham pousar ao nosso lado, se espantavam sempre quando tentávamos apanhá-las, mas, estranhamente, voltavam a pousar no mesmo lugar. Mais estranho ainda foi notar que os pássaros que surgiam não as atacavam — creio que, ou já estavam fartos de comê-las, ou elas não lhes serviam de alimento.

Então, me digam, amigos: o que poderia haver neste dia mais lindo que uma irrupção de libélulas? Desnecessário dizer que só mesmo uma irrupção de Dragonflies!...

Sabiam que há quem diga que libélula sobrevoando a cabeça da gente coisa boa não é (será mesmo, amigos?...)




Um Dragon Fly que não me atraiu...

Dragonfly, Dragonfly... eu voltaria a travar a contato com esse curioso nome exatos cinco anos depois, em abril de 1975, quando foi lançado no Brasil o disco Dragon Fly, da banda norte-americana Jefferson Starship ― um disco que ouvi e, na época, não me agradou, e, por fim, acabei vendendo-o. 

Muito certamente, o que atraiu no disco foi a linda capa de cunho espacial, uma cena agradabilíssima, uma ilustração de uma mulher-libélula com jeitão de biônica, cruzando o espaço cor azul profundo, onde alguns raios riscavam ao longe. 

Por outro lado já havia lido a biografia da banda num dos números da Rock, a História e a Glória (Nº 27), e fiquei curioso de conhecer o seu trabalho, ainda mais que fiquei curioso por conhecer o trabalho do novo guitarrista da banda, o Craig Chaquinho, de apenas 19 anos, que diziam ser um músico promissor.


― Que comprar essa bolacha, Davi?
 
― Que banda é?

― Jefferson Starship, uma banda psicodélica norte-americana.

― Som legal?

― Não é muito meu tipo...

― Se você me vender o “Zoot Allures” do Frank Zappa,  eu compro no ato.

― Não, não, esse eu não vendo. Só o Jefferson.

― Tudo bem, negócio fechado!


Vale lembrar que a capa era tão linda quanto a de outra banda norte-americana da época, o Grateful Dead, aquela cuja famosa ilustração é uma caveira de cabelos brancos eriçados e ray-ban, tocando violino sentada num pórtico tendo onde ao fundo se vê um céu estrelado ― outro disco que não me agradou e também me desfiz, porém, com uma tremenda dor no peito, pois esse disco ― o Blues for Allah ―, lançado aqui em outubro do mesmo ano, tem uma das capa mais lindas do rock, digna de um Black Sabbath. 

Lembro-me que, na cola desse disco do Grateful veio o dinossauro Bill Halley fazer shows no Brasil, e tive oportunidade de vê-lo na TV, e ele mandou muito legal, além de fazer uma pontinha e aparecer na capa do disco do Bill Halley Presents Lee Jackson, do Lee Jackson, disco lançado porém em julho do ano seguinte ― ótimo e bem gravado disco, sucessão no Brasil.




Como dar um caldinho num tiziu...

Nosso deslumbre durou enquanto o céu não ficou livre desses curiosos insetos, quando então voltamos a atirar pedras nas águas. Num dado momento, porém, arremessamos conjuntamente duas pedras ao rio, e ambas caíram tão próximas que uma quebrou as ondulações da outra.

― Olha, Lu: os meus círculos se encontraram com os seus!

― Enroscou tudo, Vinito!

― Xiiiii...

Achei uma vara de pescar caída ao nosso lado, e mesmo sem isca para colocar no anzol, coloquei um talinho de capim gordura, e mostrei para ela como se pescava.

― Os peixes comem capim, Vinito?

― Só se fosse cavalo marinho, Lu...

― Cavalo marinho, Vinito! Que cavalo é esse?

― Deixá prá lá, Lu...

Nisto, coincidentemente, uma libélula pousou na ponta da vara:

― Olha isso, Lu!

― Uma lilé... libé...

 Li-bé-lu-la, Lu!

Foi quando um passarinho escuro também pousou na ponta da vara espantando a libélula. Era um Tiziu! A mana ficou exultante:

― Olha, Vinito, um passarico!

Sussurrei para ela:

― É um Tiziu, Lu! Fica quietinha, para não espantar ele.

― Tá.

Surpreendentemente, o Tiziu começar a dar piruetas na ponta da vara e cantar o seu conhecido estribilho: “Tiziu! Tiziu!...”

— Olha, Vinito!

— Fica quieta, Lu, não se meche!

O bichinho se arremessava girando no ar e agilmente voltava a pousar na vara. Sussurrei:

― Olha o que eu vou fazer, Lu, presta atenção.

― Tá.

Quando o Tiziu saltou, imediatamente desloquei a vara para o lado e o passarinho, sem ter onde pousar, caiu na água!...

— Nooossa! ― exclamou minha irmã.

O passarinho rapidamente bateu as asas e conseguiu se safar da água, voando para longe.

Por um momento, a Lu ficou observando um arbusto ao seu lado.

― O que você está olhando, Lu?

― Tem duas lilé... libé... ah, tem dois bichinhos desses grudados aqui!

― Deixa eu ver. Nossa: duas libélulas cruzando!

― Cruzando?

Loves in the air...
― Sim, fazendo amor.

Nisto, ela se agachou devagarzinho e apontou seu dedinho indicador para o casal.

— Olha, Vinito: parece um coração!

O tal coração era o desenho resultante da união dos corpos das as libélulas ao copularem (boa observadora, essa minha irmã!)

― É meeeeesmo, Lu! Que legal!


Foi justamente aí que o tempo fechou!...

Súbito, os ventos da bonança pareceram mudar de direção. Já não eram os sussurros da brisa que chegava até nós tampouco o suave ruflar das asas do Tiziu. Não se sabe vindo de onde, ouvimos um conhecido assovio se elevando ameaçadoramente no espaço.

― Nossa, Lu, será que eu ouvi direito?!... Será que é quem eu estou pensando?... Acho que é mesmo!

E o tal assovio surgiu num horário em que ainda era um pouco cedo para ser ouvido!... (há quanto tempo estávamos ali, será que o tal do missing time havia nos pregado uma peça?!)

― Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii-í!

Antes fosse o assovio de "The Good, The Bad and The Ugly", com o Hugo Montenegro e sua Orquestra, a famosa música de faroeste que, na época, toda criança procurava imitar assoviando com as mãos em concha. Melhor assim, pois vai que o Clint Eastwood inventasse de aparecer ali, ameaçador, com sua capa, seu charuto e... seu famigerado Colt 45!...




― Pelo amor de Deus, Lu, é o assovio do pai mesmo!  

Em instantes, lá em cima estava ele, com aquela cara mais ameaçadora que o céu atrás de si, que, aquela hora, já se mostrava bastante acinzentado. Lá em baixo estava eu ― o estrupício ― na companhia da querida caçulinha de meu pai, aquela que, após quatro filhos meninos, foi a sua primeira e única menina... Mal nos viu, colérico, gritou para mim dos altos do barranco :

— Ah, seu Wenilton, seu Wenilton!...

Estremeci:

― Tô perdido, Lu! (Top, top, top...)

Com o olhar fulminante, gesticulando ameaçadoramente, renovou seus protestos:

— Dio cristo de la madona! O que você está fazendo aí com tua irmã, seu maluco?!

(Convém que o meu atento leitor faça uma ideia clara do que era a situação neste momento crítico. Em meio à uma forte lufada de vento que chegou a despentear seus cabelos, o neto de italianão desceu rapidamente o barranco, tomou minha irmã ao colo, e, me pegando pelo braço, arrancou-me violentamente do banco, no que fui sacudido do mesmo jeito que ele fazia com aquela coqueteleira ao preparar meia-de-seda quando morávamos lá na cidade...)

Ao centro, o pesqueiro em 1974, já sem a vegetação que existia nas margens.

Com a voz mais áspera e embrutecida ainda, me segurando firme por uma das orelhas, vociferou:

— Dou-lhe um murro que você nunca mais se apruma! Seu estrupício! (ainda preferia o “Seu Wenilton, seu Wenilton!...”).

O nervosismo oriundi, o olhar colérico, o pavio-curto herdado da linhagem italiana dava o tom do seu crescente protesto. Seus gritos me invadiam a cabeça e reverberavam feito bigorna. Nesse momento, tive a certeza de que uma bela surra me estava reservada para mim quando chegássemos em casa.

 Mas o quê que vocês dois estavam fazendo ali, naquele lugar perigoso, Deus do céu?!

Foi difícil explicar — chorava, gaguejava, tremia, não articulava bem as palavras.

— Nó-nó-nós esta-ta-vamos ve-vendo o...

— Tava vendo nada, seu estrupício! Você não para quieto, sempre batendo pernas pelos matos! Parece que tem murbim! (Até hoje eu não sei o que é esse tal de murbim; nem ele... Seria mais um daqueles bichos monstros do Joan Nieuhoff? Depois eu comento esse sujeito.)

Ainda em frente ao rio, me alertou da loucura que eu fizera e do sério risco que corremos, e foi enfático:

— Nunca mais faça isso de novo, seu irresponsável! Não sabia do perigo que corria?! E a sua irmã ainda é uma menininha!

— Ma-mas, pa-pai, nó-nós só estávamos jo-jo-gando pedras no rio!

— Não interessa! Ali é um lugar perigoso para a idade de vocês!

Suprema ironia: nosso pai, perdido em nuvens cinzentas de preocupação, veio então estourar a bolha colorida de nossos sonhos encantados...

É mister que, a esta altura, ouçamos uma música pertinente, um verdadeiro hit do período: me refiro à tocante "He Ain't Heavy, He's My Brother", com o grande The Hollies!



*   *   *

Subimos o barranco com dificuldade, e, já na estrada, ele se agachou para tirar algumas ramas de capim presas no chinelinho da Lu. Foi quando houve um instante sem protestos. Aproveitei e, já mais calmo, tentei também acalmar os “ânimos” de meu pai.

— Pai, porquê se a gente joga uma pedra na terra ela não traça uma linha reta, mas se a gente joga na água ela faz círculos certinhos?

— Não adianta disfarçar com essa conversinha mole, Wenilton! Lá em casa você vai ver o que eu vou traçar nas tuas costas!

— Mas, pai, o senhor precisa ter visto o bando enorme de libélulas que apareceu voando em cima do tanque!

Walter, sob a mira de um amigo.
— Eu não preciso ver nada! E eu detesto esse bicho, essa tal de libélula que andou manchando a lataria da DKW!

— Mas, pai, essa revoada das libé...

— Não me fala nesse bicho!

Sim (devo repeti-lo?), agora eu me certificava de que ia mesmo levar uma surra ao chegar em casa... (Desnecessário dizer que o meu choro voltou...)

Passando em frente a casa dos Lima, o Toninho apareceu indo em direção do quintal com uma espingarda. Meu pai ironizou:

— Aôôô, Joe Buck!

― Joe Buck, o cow-boy do Perdidos na Noite?! Quem me dera, seu Walter!

― Você não é muito novo, não, Toninho, para ficar desfilando com essa espingarda por aí? Isso é perigoso, rapaz!

― Eu tenho cuidado e sei usar, seu Walter. Eu só atiro lá atrás, no Cerradinho.

John Voight, como Joe Buck
― Melhor assim.

— Mas o Perdidos na Noite, seu Walter, que filmão, hein! Fui assistir no Cine Araruna! Foi ver, Walter?

― Sim. Também gostei muito.

― Mas o quê que o Wenilton está chorando, seu Walter?

— Ele me aprontou uma daquelas agora! Nem te conto!




*   *   *

“Evil Ways”...

A Lu, alguns anos depois.
Já em casa, meu pai entregou a Lu aos braços de minha mãe, que foi logo perguntando:

— Onde você estavamenininha sapeca?

 E a mana, na mais pura inocência e com voz afetada, respondeu:

— Eu fui zogá pédinha no liu co’o Vinito!...

— Fala direito, sua malandrinha: é jogar pedrinha no rio que se fala!

— E a gente viu também aqueles bichinhos que voam em cima do rio, as lilé... libé. Ah, não sei dizer, mãe!

— É libélula, aquele insetinho que o seu pai adora...

― Adora o caramba, Lourdes! Que aqui em casa ninguém nunca mais toque no nome desse bicho disgramado! ― esbravejou meu pai.

Colérico ainda, o italianão se encarregou de, prontamente, deixar minha mãe ciente da besteira que eu acabara de cometer. Em seguida, o veredito final:

— ...e nunca mais faça isso, porque numa próxima vez você não vai nem imaginar o que te vai acontecer, seu estrupício!

Fiquei aliviado por ele não me bater, mas, por dias a fio, a sentença ecoou como uma ameaça em minha cabeça (antes as coisas ficassem por aí...).


*   *   *

Luciana, Lourdes e
Walter, em 1967.
Após ouvir a versão de meu pai, minha mãe ficou possessa (e, realmente, as coisas não ficaram por aí!...). E foi assim que não escapei de umas belas chineladas, mas dadas por ela com aquela forma bem “materna” de surrar crianças, com pancadas perfeitamente sincronizadas com a advertência, cada chinelada correspondendo à uma sílaba, cada sílaba soletrada com uma pancada!...

— Eu já te fa-lei pra vo-cê não se a-pro-xi-mar da-que-le rio!

Não posso deixar de interromper momentaneamente a narrativa aqui, para citar aqui que o velho Mark Twain se referiu à esse curioso modo de advertir as crianças, onde, relembrando uma certa passagem de sua vida, escreveu que, durante uma aula, a professora brava consigo pronunciara seu nome “declamado inteiramente e com acento tão pouco animador”...

Então, leitores, como já disse, foi justamente aí que o tempo fechou!... Após a sova, foi minha vez de soletrar uma desculpa...

― Mas, mã-mã-e, e-eu só que-que-ria mo-mostrar pra e-ela o rio...

― Engula esse choro e nunca mais faça isso, seu estrupício! (Caramba! Agora é moda todo mundo me chamar de estrupício?!)

― Ma-mais eu nã-não fiz por-por mal!...

― Um dia você vai ter filhos iguaizinhos a você, e vai ver o quanto eu sofro!

(Vale lembrar que, em casa, nenhum de nós filhos se dirigia aos nossos pais como “papai” ou "mamãe” — era “pai” e “mãe” e acabou, pois não tinha essas formas mais carinhosas — ou “frescuras” ― de chamá-los assim, e era só na hora dos choros que repetíamos as sílabas “pa” ou “ma”, como se viu...)

Por fim, fiquei agachado num cantinho da cozinha, amuado, dedos dos pés e das mãos retesados, engolindo meu choro miudinho...

Minha mãe, mudando o dial do rádio para lá e para cá, resolveu deixar numa música com uma bela guitarra suingada e cheia de percussão.

— Quem gosta desse guitarrista são aqueles dois sobrinhos nossos com o mesmo nome — acrescentou minha mãe, parecendo deixar sua raiva em suspenso.

— Dois sobrinhos nossos com o mesmo nome! Quem são eles? — perguntou meu pai.

— O Gil da tua irmã Naide e o Gil da minha irmã Cida...

— Olha só! E de quem é essa música diferente? 

Neste momento, a música terminou e o locutor anunciou:  "Acabamos de ouvir Evil Ways com o guitarrista Santana, uma das estrelas do Festival de Woodstock".

— “Evil Ueis”: o que será que significa isso, Lourdes?

— Não me pergunte...



*   *   *

Dragonflies em voo rasante.
Mais calmo, vendo que as ameaças cessaram, também saí para o quintal. Súbito, surgido como que do nada e troando feito uma descarga de trovão, dois jatos deram um belo rasante por sobre a Usina. Junto com a pastora Laika, que correu assustada para dentro da lavanderia, levamos um grande susto, e meu pai, que quase havia derrubado uma gaiola na surpresa, perguntou:

— Nossa, que jatos são esses?!

Corri até os altos do galinheiro e pude vê-los se afastando no céu ― reconheci-os de imediato:

— São os Dragonfly, pai, jatos que a Força Aérea de Pirassununga comprou três anos atrás para os pilotos treinarem.

— Ah, sim, aqueles jatos que ficam aqui em cima da Usina treinando o dia todo.

— Iiiisso!

― E que barulhão fazem esses bichos! Antes fossem aviões de carreira, aviões que passam bem alto.

― Aviões de carreira?! ― perguntei eu sem resposta.

— Mas como você sabe dessas coisas, Wenilton?

— Foi o Carlos Tonholi que me contou, pai, aquele amigo meu lá da Granja Paulista.


— Hammm... mas qual é mesmo o nome do jato?

— Dragonfly.

— Dragonflai?! E o que significa esse nome esquisito?

— Libélula...

— Libélula?!

— Sim: li-bé-lu-la... Disse isso e fui saindo de mansinho em direção ao galinheiro...

E a Luciana, que estava lá na porta da cozinha nos ouvindo, balbuciou:

― Lilé... Libé... aaaaah, pai, eu não consigo falar!

O italianão sorriu. O estrupício idem...
  

“Ninguém põe a mão nessa porcaria!”

Como eu ia dizendo... ia nada, pois isto já é outra história!...

Bem, caros amigos, àqueles que tiveram a suprema paciência de me acompanhar até este ponto de minha narrativa, esclareço que esta história, complementar da anterior, se deu nesta mesma época que repousa no silêncio das velhas idades, e, por sinal, no mesmo recanto do tanque do meio, e, creio, história não menos curiosa (se é que a outra foi...).

Antes de mais nada, gostaria de dizer que é estranho que sempre que eu pense ou leia sobre a evolução da raça humana ou a saga dos peixes saídos das águas primordiais para dar origem às criaturas terrestres, é justamente neste discreto recanto de rio que me reporto e coloco meu pensamento.

À segunda história, então, mas, antes, permitam-me contar uma curiosa historiazinha ocorrida nesta época! 

*   *   *

Foi próximo desse pesqueiro também, ali junto à estrada principal onde havia um despejo de águas vindas da colônia, que, certa vez, eu, meus irmãos e outros meninos vimos pela primeira vez um preservativo. E muito diferente dos modernos, feito de uma borracha grossa e vermelha, com a borda enrolada mostrando a cor branca interna. Também diferentemente de hoje, se não me falha a memória, ela não era dobrável, mas um tubo comprido, armado e flexível, lembrando muito essas modernas luvas de segurança de látex amarelo, cujos dedos permanecem como que cheios de ar.

Eu, até então, não sabia o que era um preservativo, e quando descemos o barranco para vê-lo de perto, o Celso, que era o menino mais velho e vivido, alertou:

― Ninguém põe a mão nessa porcaria! Isso é camisinha!

― Camisinha?!

― Sim, camisinha de pôr no pau pra evitar fazê nenê! E deve ser usada e estar toda suja por dentro!

― Credo!

A "bolinha preta" do filme Laranja Mecânica
O irônico no encontro desse preservativo é que, justamente nesta época, eles estavam em baixa devido ao lançamento da pílula anticoncepcional uma década antes e, naturalmente, à prática do sexo livre... 

Depois, o Celso, mesmo ignorando que tipo de preservativo era aquele, se encarregou de nos passar mais detalhes sobre o assunto, assunto picante aliás, que a molecada ouviu curiosa e de olhos arregalados, todos sentados à sombra de um pé de Cordia que havia ali...


Hoje, pesquisando sobre este método anticonceptivo, fui descobrir que aquele estranho preservativo caído às margens do rio era do tipo feminino, de uso interno mulheres ― por isso aquele formato armado ―, que, ironicamente, lembrava o nariz usado pelo Malcolm McDowell no filme “Laranja Mecânica” (Clock Orange,que estrearia dois anos depois), naquela polêmica cena de estupro em que a hilária censura brasileira se encarregou de colocar uma bolinha preta como tapa-sexo na deslumbrante loiraça que era a Adrienne Corri...

Mas, à segunda história, então!

Hóspedes em tratamento

Tios João e Antonia
Por esta época, no quarteirão abaixo da nossa casa na cidade, morava um irmão de minha mãe, o meu querido tio João, o mesmo que me apresentou o cometa Ikeya-Seki numa belíssima anteaurora de finais de outubro de 1965. A poucos metros de nós, era ali então que ele, minha tia Antonia e seus dois filhos, o Júnior e a Cássia, viviam, e a história que narrarei agora diz respeito à esta minha prima, que, na época devia orçar pelos 3 ou 4 anos de idade.

*   *   *

Tudo se iniciou quando essa prima minha adoeceu de algo que parecia ser uma febre fraca mas intermitente, e minha tia levou-a aos cuidados do médico Dr. Sebastião Jair Mourão, o mesmo que, poucos anos depois, viria a ser meu pediatra também. Lembro-me de minha mãe me levando, menino ainda, à consultas com este médico naquele pequeno consultório ainda existente situado ali na rua Marechal Deodoro, Nº 247 (dá uma passada lá!).

Numa destas vezes, na sala de espera estava um moço que puxou do bolso uma caixinha amarela de pastilhas de Mentex. Mal o vi se deliciando com aquela tentação e a caixinha passou a ser alvo de meus olhares cobiçosos... Notando o que acontecia, ele sorriu, tirou uma delas da caixinha e me ofereceu. Não precisou oferecer duas vezes: voei em direção de sua mão estendida...

Minha mãe, surpreendida e um pouco constrangida, agradeceu a gentileza e disse a mim:

― Wenilton, como é mesmo que se diz ao moço?

Rapidamente, eu virei-me para ele e perguntei:

― Tem mais?

Ambos riram sem que eu soubesse o porquê.

*   *   *

Achava graça nesse consultório, pois olhando de fora a simplicidade de sua pequenina entrada, ele me remetia à bonita casinha de tijolos à vista que havia no parque infantil “Hermínio Ometto”, onde eu e meus dois irmãos mais velhos estudamos quatro anos antes, casinha esta que não era bem uma “casinha de brincadeira”, mas uma verdadeira construção de alvenaria, porém, bem entendido, de pequenas dimensões. Era nesta singela casinha que os meninos e meninas brincavam de “marido e mulher” naqueles saudosos tempos pueris. Esse mesmo lance de “miniaturização” parecia se dar no consultório do Dr. Arnaldo Baptistella de Oliveira, um dentista, que se situava  perdoem-me novamente a precisão — na rua Visconde do Rio Branco, Nº 303 (ah, dá uma passada lá), pois tinha ele também um consultório de pequenas proporções, um cubículo espremido entre duas casas, que parecia se feito à medida e gosto das crianças. Mas, deixemos de divagações arquitetônicas e voltemos à história.

Minha tia, instada sobre o problema da filha, disse ao médico que para saber se a menina estava com febre não costumava colocar a mão na testa, como normalmente se fazia, mas encostava seu no rosto no dela, e, assim, sutilmente, percebia sua temperatura alterada, o que surpreendeu o doutor.

Após o diagnóstico, este a advertiu que deveria levar a menina por uns tempos para um lugar longe da cidade, onde houvesse muita natureza e ar puro, que isto bastaria para curá-la. Ademais, a Cássia estava em situação delicada, pois havia tomado antibióticos em excesso.

O primeiro lugar que veio à cabeça de minha tia foi a casa de sua cunhada, a Maria de Lourdes (oh, sim, aquela das chineladas compassadas...) e sua casa na Usina Palmeiras.

― João, já decidi: eu vou conversar com a Lourdes  e ver se posso passar um dias lá na Usina para tratar da Cássia. Isso foi por decisão do médico: tem de ser um lugar com natureza e ar puro.

― Tudo bem, Antonia. Melhor lugar não há, mas, fica tranquila, querida, que eu me viro aqui, eu e o Júnior.

*   *   *

Ônibus da Usina Palmeiras, 1974
Já no primeiro dia — minha tia, que havia chegado com o ônibus logo de manhã ― viu o Weber ao longe na estrada, vindo lá da colônia de cima, certamente das aulas no grupo da Usina, onde havia começado a cursar o primeiro ano.

Abraçando-o, perguntou-lhe:

— Oi, Weber, há quanto tempo! E aí, está gostando das aulas, da escola, dos amiguinhos?

― Sim tia, mas a aula acabou cedo, hoje. Dito isto, ele franziu as sobrancelhas e emendou:

— Olha, tia: eu gostei muito dos novos amiguinhos, mas a professora, chiii, ela não sabe nada!

— Como assim: “não sabe nada”, Weber?

— É que ela fica o tempo todo perguntando de tudo para a gente, tia!

Minha tia sorriu abertamente.



Dente de leite

Assim, durante cerca de uma semana, minha tia e minha prima ficaram morando conosco, e, religiosamente, toda manhã, iam passar uma horas com a menina às margens do tanque do meio, que era o lugar onde minha mãe acreditava ser o ar mais fresco e puro ali na colônia de baixo.

— Ali, Antonia, no meio daquele verde e daquela água limpa, o ar deve ser dos melhores. E mais, cunhada: nessa época de entressafra não tem caminhões de cana rodando por ali.

— Que bom, Lourdes, que bom. É isso mesmo o que a Cássia precisa.

*   *   *

E ali, ambas passavam longos momentos, indo de cá para lá, de lá para cá. Ao sol da manhã, tomado por um princípio de cerração que se espraiava de leve sobre a superfície da água, tinha esse lugar como que uma cenografia que remetia à recantos paradisíacos de velhos arraiais de outrora, arraiais estes só encontrados naquelas tocantes poesias dos mestre Fagundes Varella.

Isto posto, amigos, antes de nos aprofundarmos mais na história, eis aqui a trilha sonora ideal para a cenográfica cena, pérola que fui buscar lá no futuro: “Luz do dia”, do mestre Cláudio Nucci, belíssima balada campestre que vim a conhecer pouco mais de 10 anos depois:

“Tudo de novo
Sob a solar luz do dia
Tudo a renovar
O que vai vir
O que virá para ficar
Tudo novo sob a luz
Do dia que vem renovar
Tudo o que ficou
Tudo o que ficar, fazer,
Sobreviver
Sob a luz do dia
Viva a luz solar”


*   *   *

Noutro dia, ali pelo meio da manhã, com o Sol fraco ainda, minha tia e sua filha desceram novamente para a margem do tanque. Lindo era o dia e a atmosfera desse dia luminoso e sereno, céu de brigadeiro, temperatura agradabilíssima.

Diante do tanque, a Cássia exclamou:

— Olha, mãe, os passarinhos em cima do rio!

A pequena Cássia Rocha, quatro
anos antes desta história
— São andorinhas, filha. Olha os círculos que elas fazem no ar! Quando elas começam a voar assim, dizem que vai chover, mas eu não acho que vai, não.

— An-do-ri-nha...

— Isso, filha: andorinha. Sabia que ter andorinha morando no telhado da casa da gente, traz sorte, Cássia?

— Sorte. O que é sorte, mãe?

— Sorte?... bem... olha, filha: quando teus dentinhos de leite caírem, eu vou jogá-los em cima do telhado pedindo pras andorinhas que aparecerem trazerem outros dentinhos bons. Isso é sorte.

— Éééé?...

*   *   *

Não sei se minha tia exagerava, ou se queria agradar minha mãe pela cortesia da estadia, que cheguei ouvi-la dizer:

― Nossa, Lourdes, aquele ar fino e puro do tanque parece que entra na alma da gente!

— Éééé?...

Em que pese o novo exagero, minha tia foi até poética nas palavras...

— Lourdes do céu, e aquela reverberação do sol nas águas, aquela cerração finíssima se espalhando sobre as águas!... E a luz: a luz parecia palpável!

— Nossa, Antonia, o que você andou lendo para falar bonito e difícil assim? Foi Fagundes Varella, foi?


Django usineiro...

O motorista Lima.
Antes de dar continuidade à esta capítulo, convém esclarecer que a poucos metros do tanque se erguia a última casa da colônia de baixo, a casa do já citado seu Lima, motorista do ônibus da Usina, por sinal, casa esta que ficava ao lado da nossa.

Assim, durante esta semana, pouco depois das oito da manhã, lá estavam minha tia e sua filha, descontraindo-se à beira do tanque.

Ocorre que mal o Lima retornava de sua viagem à cidade, notava que ambas ficavam perambulando por ali.

Nesta época, o Lima tinha uma plantação de milho no terreno ao lado de sua casa. Assim, mal ele adentrava sua casa, corria para uma das janelas laterais e ali se punha a vigiar discretamente tentando descobrir o que aquela mulher desconhecida fazia ali com uma criança.

Mas acontece que, não se sabe como, minha tia percebeu que sempre naquela hora o motorista ficava ali na janela “como quem não quer nada”, e não viu coincidência nisto, que seus olhares pareciam sempre inquiridores, mais, inquietantes até. Com a insistência, começou a ficar cismada, até que um dia o homem apareceu na janela se insinuando com uma espingarda à tiracolo, e ficou ali em atitude meio que intimidadora.

Imediatamente, minha tia pegou sua filha e voltou para nossa casa. Tão logo entrou foi ter com minha mãe e dar ciência do ocorrido.

— Lourdes, não sei não, mas acho que o seu vizinho Lima está me interpretando mal.

— Como assim, cunhada?

— É que...

Meu pai, que ouviu a história, ironizou:

— Espingarda?! O Lima?! Há-há-há... Acho que o homem andou assistindo o filme do Django lá na cidade!...

― O caso é sério, Walter! Interviu minha mãe.

Indignada, no mesmo instante foi ter com o homem. Este, ao saber o porquê da permanência delas ali, se desculpou sinceramente e disse que estava agindo assim porque imaginou que, sem saber que era nossa tia, ela estivesse ali roubando milho.

— Nããão, Lima, não é nada disso! A minha sobrinha está em tratamento de saúde e...

Wight is wight...



*   *   *

Desfeito o mal-entendido, no dia seguinte minha tia voltou à estância, digo, o tanque do meio, mas, novamente, lá estava o Lima à janela, mas desta vez debruçado no peitoril e (sem espingarda, naturalmente...) com uma visível cara de arrependido, como que querendo se desculpar... Minha tia, porém, magoada que ficara, não quis saber de conversa, e mal conseguiu encará-lo... Virou a cara e se foi.

— Django!... humpf!...

— Di-jan-go. Soletrou a Cássia…


A cura

O "tanque do meio", em 1974
Assim, surpreendentemente, ao final de uma semana de passeios pelos entornos do tanque, minha prima parecia curada, já que a febre intermitente havia cessado por completo. A cura se confirmou no retorno ao pediatra, que ficou feliz por ter constatado que sua sugestão fora a correta.

― Os ares dessa Usina te fizeram bem, hein, menina! Abençoado lugar!

— Di-jan-go.

— O que a menina disse, dona Antonia?

— Nada, nada...

*   *   *

Nesta época, ainda não havia sido construído pouco acima e ao lado do tanque do meio as leiras que recebiam o fétido vinhoto vindo da destilaria da Usina, o que talvez poderia comprometer o tratamento de minha prima, uma vez que o cheiro era muito forte e até nauseante.

Está certo: não se podia encontrar nos ares usineiros um valor terapêutico semelhante ao do salutar clima de Campos de Jordão ― longe disso ―, mas, em época de entressafra (a safra começaria em maio), quando não havia queimadas nem as chaminés não deitavam fumo pelos ares, e muito menos os caminhões que ao vir descarregar cana na Usina levantavam um poeirão, os ares ali eram no mínimo bons e saudáveis. Assim, não é de se descartar que uma suposta salubridade do lugar havia colaborado mesmo na cura da menina.


Café com leite

Retornamos ao tanque dias depois eu, meu pai e meus irmãos, incluindo minha irmã. Íamos levar o nosso cão, a pastora Laika, para tomar uns ares, digo, nadar... Era um domingo à tarde.

Nisto, passou um negro sorridente largando poeira num Corcelzinho branco, que buzinou e acenou para o meu pai:

― Faaaala, Vartão!

Meu pai não o reconheceu.

― Nossa, será que era o Marinho?

― Que Marinho, pai? O filho da minha madrinha, a tia Laza?

― Nããão, seu estrupício!

A Luciana interviu:

― É aquele cavalo marinho lá do rio, Vinito?

Aí foi meu pai que interviu...

— Vocês não viram que era um negão?!

― É que eu estava olhando para a Laika no tanque... — me expliquei.

― E você acha, Wenilton, que teu primo tem idade para dirigir?! Nem carrinho de brinquedo acho que ele dirige direito!...

― Tá bom, pai... (meus irmãos mais velhos riram).

― Acho que era um jogador de futebol lá da cidade que eu conheço. Pelo jeito, vai jogar aí na Usina.

*   *   *

Arlete Salles e Tony Tornado
Vale lembrar que, aí por volta do final da década de 1970, o preconceito contra os negros começou a se arrefecer não só em Araras, mas em todo o Brasil: eles começavam a frequentar os clubes de brancos normalmente, e muitos deles, famosos ou não, namoravam mulheres brancas.

Coincidentemente, nesta época, um exemplar da revista Fatos & Fotos de março de 1969, trazia um polêmico tema: "Negros que se casam com brancas" se referindo ao assunto. Pouco depois, daria grande ibope o casal Tony Tornado e Arlete Salles, ela, uma belíssima atriz, e ele, o futuro cantor que ganharia o V Festival da Canção com o hit BR-3, no ano seguinte, em outubro de 1970.

Mas voltemos a Campos do Jordão, digo, ao“tanque do meio...

― Será que é o Marinho mesmo naquele Corcelzinho que passou, pai? ― perguntou o Wagner.

― Só indo lá no jogo para saber, mas se é ele mesmo, esse negão boa-pinta aí é cheio de ganhar umas loironas lindas lá na cidade.

— Já ouvi falar dessa história, pai. — acrescentou o Wagner.

Pelé e Rosemari, 1966
― Acho que isso se deve parte ao Pelé, que depois que ganhou a Copa de 1958 fez mudar muita coisa, e essa é uma delas! Por mais que eu não me simpatize com o Rei, tenho de tirar o chapéu para ele neste lance.

― Verdade, pai.

― Depois que ele se casou uns quatro anos atrás com o Rosemari, aí parece que o gelo foi quebrado de vez mesmo, e a negada, encorajada por ele, começou a fazer a festa!

― Que Rosemary, pai? Aquela loirona cantora da Jovem Guarda?

― Nããão, Waltinho! Essa era uma morena bonita, acho que lá de Santos, uma jornalista.

— Éééé?...

*   *   *


Giovanna e Germano
No ano seguinte ao casamento do Pelé, houve um outro caso que deu enorme ibope, o do também jogador de futebol Germano que se casou com a condessa Giovanna Augusta, herdeira de uma poderosa e tradicional família da Itália. Germano fora jogar no Milan após ter 
Rosemary e Simonal, Vera Fischer e Erlon Chaves

deixado o Flamengo em 1962, e ao ficar famoso por lá atraiu a atenção da condessa. A família foi contra o enlace, mas, mesmo assim, ele foi 
destaque na imprensa internacional.

E, no Brasil, a coisas se incrementaria deveras na década seguinte, com grandes artistas desfilando com as mais belas e famosas loiras do País: de um lado, o Wilson Simonal com a cantora Elizabeth, de outro, o maestro Erlon Chaves com a ex-Miss Brasil  sim amigos, a loira platinada Vera Fischer, e, bem depois, novamente o Pelé, desta vez com a Xuxa!... 

Assim, o gelo eterno estava definitivamente quebrado, seja pelos famosos do mundo musical e das novelas, sejam pelos do futebol!...



“Os discos voadores prometeram voltar a São Paulo”

John Lennon e Yoko Ono, nus pela paz...
À propósito, em Araras, houve um famoso caso de um jogador de futebol que, por esta mesma época, namorou a filha de um prefeito e que deu um ibope enorme  na cidade ― e ibope que, guardado as devidas proporções, deu falatório não menor que o do Pelé!... E meu pai falava disso com o Wagner.

Minha mãe, que havia chegado a pouco, ouvindo a conversa, resolveu opinar:

― Mas, Walter, o caso deu ibope igual ao do casal do célebre 25 de março de 1969?

― Que casal do 25 de março? 

― Aquele casal dos Beatles, não lembra?

― Ah, o tal do John Lennon e aquela japonesinha mal-ajambrada?

― Issoooo: a Yoko Ono!

Meu pai ficou curioso:

― E o que esses dois fizeram que deu polêmica? É porque ele era branco e ela japonesa? Casamento interracial?

Fatos e Fotos, 20-3-1969
― Nãããão, Walter! Não tem nada a ver!...

― Porquê, então?

― Não lembra que os dois ficaram nus protestando pela paz, contra a Guerra do Vietnam?

― Ah, é, havia me esquecido! Mas cá entre nós, hein Lourdes: se existe maior exemplo de que o amor é cego, o John Lennon ganha disparado nessa!...

― Que exagero, Walter! Eu até que acho ela bonitinha.

― Mas aquela bundinha murcha da foto... hummm...

― Que maldade, Walter!

― Que revista é esta aí na tua mão?

― A Fatos e Fotos. 

― Deixa-me ver a capa. Ah, o tal dos Beatles!...

Intervi:

― Deixa eu ver também, mãe!

Mal li um dos enunciados da capa, exultei:

― É verdade isso, mãe?! 

― Verdade o quê?


― O que está escrito aqui: “Os discos voadores prometeram voltar a São Paulo”.

Pelé, personagem de ficção científica!...

― Eu não li ainda.

― Então pode ser verdade?

― Depois você lê e fica sabendo.

― Vou ler já, mãe!

— Sabia que aquela novela nova da TV Excelsior, Wenilton, “Os Estranhos”, fala de discos voadores?

— Éééé?...

— E sabe que em está no elenco, Walter? Nada mais, nada menos que o... Pelé!

— O Pelé ator!... E o que ele é na novela? Um marciano?

— Não, é um terráqueo mesmo... Só que faz pesquisas sobre discos voadores e entra em contato com os tais seres estranhos do planeta Gama Y 12, que visitam a Terra...

Gibi da série "Os Invasores"

— Só me faltava essa!...

— Se interessou em assistir a novela, Wenilton, já que ela fala dos discos voadores que você tanto gosta?

— Não, mãe. Prefiro assistir “Os Invasores” no Canal 4.

— E eu prefiro assistir o Pelé no futebol mesmo! — exultou meu pai...

— Aliás, mãe, se a senhora for comprar outra Fatos e Fotos, aproveita e compra para mim um gibi dos “Os Invasores”.



Pelé no cosmos...

John Glenn e a Mercury 7, 1962
— Mãe, eu estava pensando um sia desses se algum dia vamos ter um astronauta negro. O Tonholi falou para mim que tinhanegros trabalhando na Nasa desde que ela surgiu, e quem foi responsável por levar o primeiro astronauta dos Estados Unidos em órbita da Terra foram três cientistas negras, que fizeram todos os cálculos matemáticos para que a viagem desse certo. Foi através delas o astronauta John Glenn foi ao espaço em 1962. 

— Olha só que legal! 

(Ano mais tarde, vim a saber que no ano em que eu nasci — ou seja, no ano da graça de 1961! —, o então vice-presidente Lyndon Johnson criou projetos para a Nasa visando diminuir a segregação e recrutar funcionários afro-americanos para os programas espaciais)

— Mas, peraí, Wenilton: o primeiro a entrar em orbita da Terra não foi o russo Yuri Gagarin?

— Sim, sim, mãe, mas isto foi em 1957.

— Então os Estados Unidos perderam a corrida espacial? — perguntou meu pai.

— Sim, pai, mas recuperaram depois que que chegaram primeiro na Lua.

— É surpreendente que, nos Estados Unidos, país tão racista, havia negros trabalhando com foguetes.

— É, o Tonholi falou desse racismo, e disse que as cientistas e trabalhadores negros não podiam usar os mesmos banheiros dos brancos, e até ganhavam menos que os brancos.

— Brincadeira!

— Ele falou também que aquele que seria o primeiro astronauta negro morreu num acidente aéreo dois anos atrás. 

— Caramba!

— Você falou, Wenilton, se, um dia, vamos ter uma astronauta negro um dia, mas...

Meu pai interrompeu minha mãe:

— Olha o Pelé: do jeito que está subindo, logo-logo ele vai estar estrelando no cosmos.

Mas, basta de divagações, meus caros amigos, e vamos pegar leve agora e colocar um ponto final nesta longa história.


Anjo tutelar

Ao centro, o pesqueiro em 1975
Reportando à primeira história, amigos, não havia duvida que aquele canto de rio, apesar de seus bons ares, era em lugar tão ou mais perigoso que os soldados de Herodes o eram para as crianças (que exagero, Wenilton!... bom, foi algo mais ou menos assim que senti aquele dia em que meu pai apareceu bravo como nunca ali...).

Mas acontece que eu me recordo que havia em casa, desde os tempos da Chácara Daltro lá na cidade, um pequeno quadro, muito comum na época, quadro esse normalmente vendido pelos mascates de outrora, cuja gravura trazia uma clássica cena campestre em que se via duas crianças — quiçá um irmão e uma irmã —, se aproximando perigosamente da margem de um lago para pegar uma pequena bola que havia caído ali. Atrás, certamente invisível, com as mãos estendidas, um anjo da guarda velava pelas inocentes crianças. (Ah, esta estampa está até hoje devidamente guardada em meus preciosos arquivos).

Na verdade, esse anjo era do sexo feminino, e só não vou escrever anja aqui, que isso é tão feio quanto escrever presidenta!... Diria então que era uma querubina, aliás, uma bela loira (haja loiras nestas histórias, hein, Wenilton!). De todo modo, se diz que anjos não tem sexo, mas, mesmo assim, não vou discutir aqui o tal “sexo dos anjos”, e, na verdade, isto nada importa à narrativa.

Citei esta cena do velho quadro apenas para ressaltar a semelhança de sua gravura que remetia à eu e minha irmã, inocentes e indefesos, na beira de um rio, e não quis aludir que poderia haver algum anjo ali velando por nós — nada pressenti e, felizmente, fora a fúria de meu pai e as chineladas de minha mãe, nada de perigoso nos aconteceu.

Como se viu, o único ser vivo que apareceu ali foi nosso pai, que, com sua figura que pouco tinha da calma de um anjo tutelar, nos encheu de advertências e medo, levando-nos de volta para casa. Sim, amigos, foi medo brabo mesmo ― coisa medo de menino sonhador, desses que veem estranhas mariposas em seus pesadelos ― algo só comparável à aparição do temível “Hooyschrenkel”, o cruzamento de libélula com gafanhoto ― um daqueles seres fantásticos que o holandês Joan Nieuhoff disse ter visto no Brasil no distante 1682. Mas, cá entre nós, amigos: será que o tal de murbim de que falava meu pai era um bicho desses ― quiçá um bicho do fundo do rio? Bom, desde que ele não viesse costurar minha boca em meus sonhos delirantes...

Enfim, quem sabe o meu pai tenha sido algo como um anjo avesso... Mas, pensando bem, anjo sim foi minha tia que teve a sapiência de escolher os bons ares da Usina, e, sem se aventurar perigosamente pela margem do rio, curou definitivamente sua filha.


*   *   * 
  

Como se vê, a razão que o Di-jan-..., digo, a razão que o Lima não teve com sua espingarda, a minha mãe teve de sobra com seu chinelo surrando o tal de estrupício, este infeliz que vos escreve!...

— Eu já te fa-lei pra vo-cê não se a-pro-xi-mar da-que-le rio!


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* Este capítulo faz parte do  Volume 2 - Sweet memories ― janeiro de 1969 a dezembro de 1970". O livro está em processo de confecção sem prazo para lançamento.


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