quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

CELSO, O EXCELSO SINEIRO

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“Há na verdade uma arte de tanger, de picar e repicar, de correr
e dobrar sinos. E o nosso tocador de sinos (...) possuía uma
 virtuosidade impressionante, que se exibia nas mais sutis
 manifestações estilísticas (...) e com maestria e arte, dominava
os repiques festivos, em beleza e ritmo, que bem poderiam
 inspirar um estudo folclórico, e os nossos Villa-Lobos... (...)
badalando o grande sino, parecia cantar em versos dolentes,
dizendo  adeus e chorando na doce melancolia do entardecer.”
(TRIBUNA DO POVO. Cigalhos. Maria Lúcia, 27 out. 1963)

Noivos casavam, ele repicava as bodas;
crianças nasciam, ele repicava ao batizado;
pais e mães morriam, ele dobrava aos
funerais. Acompanhou a história da cidade.”
(A Semana. Machado de Assis. 1900)

“Só aos discípulos do emérito João Braga,
e no impedimento do mestre, se permitia
o manejo das cordas que pendiam dos
badalos. Esses meninos, a quem minha imperícia
votava uma admiração plena de humildade,
conheciam, a fundo, a arte de tanger e destanger,
picar e repicar, correr ou dobrar sinos.”
(A Menina do Sobrado. Cyro dos Anjos. 1979)



A presente história ─ mais uma daquelas passadas no rico teatro de minha infância ─ se inicia tendo como fundo uma canção cujo sucesso foi para lá de expressivo no Brasil, “Good Morning Starshine”, com o cantor Oliver, da trilha sonora da famosíssima peça teatral bicho-grilo “Hair”. Sim, sim, poderia ser “Aquarius”, da mesma peça, canção que fez igual ou maior sucesso, mas deixemos esta outra pérola para uma ocasião mais propícia.

À história, então!



*   *   *

Falarei aqui de muitos assuntos interessantes daquele tempos, hoje tão recuados, como, p. ex., morte de entes queridos, dobres de sinos, música, tradições desaparecidas, histórias em quadrinhos, religiosos e, naturalmente, discos voadores...

Naquelas horas mais tardias, mas que ainda conduziam o encanto da manhã, meu novo amigo contou-me uma novidade:

─ Você não vai acreditar no que eu li hoje num jornal, Wenilton!

Gal Costa - por M. A. Lima - 1970.
─ O quê, Celso?

─ A Gal Costa falou que não vai mais cortar os cabelos porque ter cabelos compridos é ter cartaz, e, para justificar isso, ela citou Jesus Cristo e... Lampião! Dá para acreditar?!

─ Lampião, aquele cangaceiro bandido?!

─ Esses mesmo!... Esses artistas jovens de hoje são todos meio malucos! Viu aquele casal de hippies da peça de Teatro “Hair”, que se casaram no palco?

─ Sério?! Hippies se casando no palco! Que louco, cara! Mas que peça é essa?

─ É coisa de hippie... hair é cabelo em inglês; então...

─ Não sabia.

─ Se a peça “Hair” tem algo de bom é a trilha sonora! A música “Good Morning Starshine”, do tal de Oliver, é lindíssima!

─ Não sei se conheço.

─ Mais hora, menos hora, você vair ouvir e tenho a certeza de que vai gostar. Mas, quanto aos hippies, uma legião deles baixou em Singapura e o governo de lá decidiu expulsar todos, pois o tráfico de drogas aumentou na cidade.

─ Singapura! Conheço esse país de uma figurinha que vi no álbum “Nosso Mundo”, que lançaram o ano passado. É que esse nome, e também Rhodes, nome de uma ilha, me chamaram a atenção não sei porquê...

─ O tal Colosso de Rhodes?

─ Talvez...


“Eu não gosto de velório e de enterro, e muito menos de ver defunto!”

O Franzoni
Vamos datar o dia, e com precisão: era na manhã de 30 de maio do ano da graça de 1970, um frígido e ensolarado sábado, em que um céu límpido e azulíssimo pairava sobre a cidade, um dia assim, de um céu assim, de um sol assim... logo para mim, uma criança que gostava de amplidão mais que gavião-carijó em dia de céu de brigadeiro!...

Vindos da Usina, mal chegamos à cidade, pedi a meu pai que me deixasse na praça, no que teimei que teimei com ele que eu não ia mesmo ao velório do Mário Dávolos, senhor este falecido no dia anterior. O Mário era pai da Sueli, amiga de minha prima Márcia Franzoni, e, por sua vez, amigo de meu tio Franzoni, de que falarei em breve. Na idade que eu tinha, pouco me recordo de sua pessoa, que aquela entidade metafísica conhecida como Tempo foi nublando em minha memória a sua pessoa o seu semblante, porém, me recordo que já era um senhor já na casa da terceira idade.

─ ...ah, mas que você vai, você vai mesmo neste enterro!

─ Não, pai, eu não vou, não vou e não vou! Eu não gosto de velório e de enterro, e muito menos de ver defunto!

─ Ele é amigo da família!

─ Ah, pai, eu nem me lembro quem é ele!

─ Ele morar ali do lado da loja Sogra Som, um quarteirão depois da vó!

─ Ah, não sei onde fica, pai!

─ Você é danado! No enterro do Zé Brezolin também não quis ir!

─ Que Zé Brezolin?

─ O que concerta minha DKW!

─ Ah, pai, eu não vou nesse de novo!

─ Mas vo...

Minha mãe interviu:

─ Deixa ele, Walter... criança é assim mesmo.

─ Tá bom, tá bom! Mas, peraí: o que você vai fazer na praça a essa hora? Dar voltas no coreto?

Resolvi zoar:

─ Sim, e eu vou entrar em órbita em volta dele!...

─ Entrar em órbita em volta do coreto! Você é assim mesmo: quando não está pensando em aviões, está pensando em foguetes, astronautas e discos voadores! Você parece vive no mundo da Lua!

Minha mãe interviu:

─ Para, Walter! Deixa ele!

*   *   *

Seu Anselmo
Mas, caro leitores, voltando à temática morte, eu era exatamente aquilo mesmo: naquela idade em que o tempo andava à passos de tartaruga, ou seja, aos 9 anos, eu ainda não tinha coragem de ver gente morta, de ver acidentes, de encarar um falecido... Tanto o é que, meses depois, da mesma maneira, eu me recusei a ver o senhor Anselmo Martinelli, que falecera em 28 de julho seguinte, aos 65 anos. Era, o querido “Seu Anselmo”, marido da dona Pina, um vizinho que morava em frente à casa de minha avó materna Ana Rocha, e muito amigo também de toda nossa família. O mesmo se dera com o meu avô, Chico Rocha, que faleceu 10 de julho de 1974 ─ lembro até hoje: ao chegar em frente à porta da sala, onde havia uma cortina preta, mal vi o caixão lá dentro e fiz “meia volta, volver”... Nunca mais vi meu avô, mas, em compensação, não gravei em minha mente a imagem dele morto. Naquela data, meu pai e minha mãe me abordaram em frente à casa:

─ Mas, Wenilton, entra lá na sala e dê um beijo de despedida em seu avô!

─ Não pai: eu não vou, não vou e não vou!

─ Mas porque, caramba?

─ O senhor está cansado de saber: “Eu não gos-to de ve-ló-rio e de en-ter-ro, e mui-to me-nos de ver de-fun-to!”

Minha mãe interviu:

─ Para, Walter! Deixa ele!


Gibis, gibis, gibis...

A missa pela alma do Dávolos se realizaria na capela do Cemitério Municipal, e o féretro partiria de sua residência, para onde meus pais e irmãos iriam ao chegarmos na cidade. Pedi a meu pai, então, que me deixasse no Grupo Zurita, que ali eu tomaria o ônibus de volta para a Usina.

─ Deixa eu ali no ponto do Grupo Zurita, pai.

─ Tá.

Mal ele parou a DKW em frente a escola, já fui pedindo: 

─ Me dá uns trocados que eu quero assistir um filme no Cine Araruna depois à tarde?

─ Que assistir filme coisíssima nenhuma! Você não ia embora? E aonde você vai ficar esse tempo todo até começar o filme?!

─ Mas, pai, vai passar um filme de guerra legal!

Eu me referia ao filme italiano Comandos, com o Lee Van Cleef.

─ Mas, caramba, você só pensa nisso, Wenilton: aviões, naves espaciais, astronautas, discos voadores! Você vive no mun...

Minha mãe interrompeu...

─ Para, Walter! Deixa ele!

─ Dessa vez é filme de tanques de guerra, pai, e na África! Eu vi no trailer, a semana passada.

─ Tudo a mesma coisa! Você devia assistir filmes que nem o “Uma Pistola para D’Jeca”!

─ Ah, pai, eu moro na Usina, mas não sou caipira!...

─ Ah, não?!

─ Eu até curto os filmes do Mazzaroppi, mas...

─ Não tem mais nem menos! Você se esqueceu que esses filmes guerra não passam no matinê?! É só à noite! Além disso, deve ser filme proibido para menores! Vai embora, então, pra Usina, e já no próximo ônibus!

─ Não está passando um filme do Elvis Presley, o “No Paraíso do Haway”? A censura deve ser 5 anos.

─ Eu tenho o dobro de idade, mãe...

─ E o Butch Cassidy?

─ É impróprio para menores de 14 anos...

─ Desista, Wenilton! Você não vai!

─ Mas, pai, é a quarta vez que o senhor não me deixa assistir um filme que gosto. Primeiro foi o “A Batalha da Grã Bretanha”; depois o "Inferno Pacífico" e  o “Sem Rumo no Espaço”! E agora, esse!

─ Não tô falando: só pensa em guerra e foguetes!

Como meu pai estivesse irredutível, recorri então à uma daquelas muitas paixões que a gente traz intocada da infância:

─ Então me dá aí uns cinco cruzeiros preu comprar gibis.

─ Gibis, gibis, gibis! Você só pensa em gibis!

─ Para, Walter! Deixa ele!

─ Para você, que só fica repetindo isso: “Para, Walter! Deixa ele!”, “Para, Walter! Deixa ele!”...

─ Não vê que ele gosta de ler? Isso é bom!

─ E vai comprar gibi de guerra, pelo jeito...

Ironizei...

─ Vê lá!

Ele ironizou também...

─ Já estou até vendo: vai comprar os gibis e depois sentar lá no banco e ficar que nem o Sinfrônio!

Minha mãe riu. Você leitor, tenho a certeza que não, mas, em breve, você vai entender do que se trata ─ e talvez rir ─ quando, mais adiante, eu voltar a falar desse tal de Sin-frô-ni-o.


Discos voadores...

A Agência Feres, ao centro.
Michel Feres
Grana na mão, dirigi-me até a Agência Feres no mesmo instante, naquela época uma galeria ao lado da Casa Pernambucanas, ali onde hoje se ergue a agência bancária Bradesco.

─ Que novidades temos aí, Seu Michel.

─ Gibis, gibis, gibis!

─ Ãn?! Parece meu pai falando!

─ Estou brincando, Daltro. Chegou muita coisa nova!

─ Chegou algum gibi novo da Combate, aquele gibi de guerra?

─ Ainda não, Daltro, mas chegou mais um lote deste gibi aqui, de discos voadores. Gosta do assunto?

─ Discos Voadores?! Nossa, se gosto, Seu Michel! Vou levar esse mesmo! Vou aproveitar e levar esse aqui também, do Homem de Ferro e o Capitão América ─ eu nunca li um gibi desses dois super-heróis.


─ É muito bom! Andei dando uma folheada! Ótimos desenhos!

─ Também acho!

─ Mas os super-heróis são seres que nos frustram, não Daltro?

─ Como assim, Seu Michel?

─ Veja bem, Daltro: a gente pode ser pobre e olhar pro rico, e sentir inveja ou ódio dele, mas podemos chegar a ser ricos se nos esforçarmos. Mas se olhamos para o Homem de Ferro ou o Capitão América, a gente sabe que por mais que a gente faça nunca vamos conseguir ser como eles...

─ Nossa, Seu Michel, eu nunca tinha pensado nisso!...

─ Mas, mudando de assunto, Daltro, disseram que quem viu um disco voador dias atrás foi a Lygia Fagundes Telles.

─ Quem, Seu Feres?

─ Lygia Fagundes Telles: ela é escritora, e era casada com o Goffredo Telles Jr., dono da fazenda Santo Antonio aqui em Araras.

─ Ãn...

Lygia Fagundes Telles,
na praça Barão de Araras
─ Boa parte de seu primeiro romance “Ciranda de Pedra” foi escrito nesta fazenda.

─ E como era o disco que ela viu?

─ Estava ela lá numa praia selvagem em Ubatuba tomando uma caipirinha, e, de repente, olhou para o céu e viu, em plena luz do dia, um objeto estranho, com uma luz fortíssima e voando numa velocidade extraordinária.

─ Nooossa! Queria ter visto isso, Seu Feres!

Mas acontece que, já na primeira semana do mês seguinte, seria a vez do cantor Chico Buarque se deparar com os visitantes do espaço. Indo para um show que faria no Canecão com a Bethania ─ que resultaria no famoso disco ao vivo ─, ele viu entre 15 e 20 objetos fazendo evoluções impossíveis no céu todos próximos à Pedra da Gávea. E eu pergunto: o objeto visto pela Lygia pertencia ao mesmo “congresso de discos voadores”, nome que o Chico batizou seu avistamento?...

*   *   *

Mas, voltemos aos gibis. 

O primeiro, era o marcante Coleção HQ – OVNIs/Discos Voadores Nº 2, um gibi incrível que trazia o relato de uma grande variedade de casos ufológicos ocorridos no mundo todo, inclusive no Brasil. Os desenhos eram muito ricos e bem executados pelas mãos do grande Eugenio Colonnese, desenhista que nos anos seguintes, já na escola “Cesário Coimbra”, vim conhecer nos livros “Geografia Ativa", da Zoraide Victorello Beltrame, e no “Comunicação em Língua Nacional”, do J. Milton Benemann e L. A. Cadore, dois livros que eu amei estudar neles e foram obras vitais em minha formação literária. 
Eugenio Colonnese

À propósito, o Colonnese também fui um dos ilustradores do gibi Combate que citei ali atrás, um grande mestre meu no desenhos de aviões ─ se desenho aviões ainda hoje, e por causa dele e do Ignácio Justo, outro fera da Combate

Já o segundo gibi, era uma publicação da editora Ebal, e do mesmo modo, me esbaldei com os excelentes desenhos a cargo do ótimo Archie Goodwin, que arrasou no traje e na anatomia do Capitão América no embate contra o temível vilão, o Caveira Vermelha e seu cubo cósmico, rivais que iriam para o cinema em 1990.


“Hi-pe-ri-dro-se”...

O Luiz Carlos de Góes, com as mãos erguidas
Aquele precioso gibi ─ o dos discos voadores. Agora, num salto do tempo, estamos na primeira metade do ano de 1976. Lembro-me que o emprestei a um amigo na Usina, o Luiz Carlos de Góes, porém, infelizmente, ele nunca mais me devolveu... À propósito, o Luiz havia dito a mim ter visto vários OVNIs na época, numa certa noite de verão.

─ E por falar em disco voador, você assistiu a TV Record ontem à noite?

─ Não. Mas, porquê, Luiz?

─ Passou um filme ou programa chamado “Disco Voador”, mas acho que é uma série.

─ Sério?! E eu perdi isso, caramba?!

─ Que horas passou?

─ Vinte para as cinco da tarde. Eu tinha acabado de chegar em casa.

─ Que pena! Eu devi estar brincando nesta hora.

O relato do caso dos OVNIs vistos pelo Luiz
Contou-me ele que, naquela noite ─ era 17 de fevereiro de 1975 ─, viu um grupo de seis discos voadores discoides multicoloridos passando silenciosamente por sobre a Usina, isto, quando ia de carona num caminhão para cidade. Do alto da carroçaria, às 19:30, viu os objetos passarem, em movimentos ascendentes e descendentes, como que dançando nos céus, à uns 300 metros de altura, e se deslocavam rapidamente no sentido Norte-Sul. Ouvi boquiaberto sua narração, e até fiz depois um relato do caso.

─ Olha, Wenilton, os discos que eu vi eram meio parecidos com os da capa desse gibi aí!

─ Sério?

Convém, lembrar, o Luiz era funcionário do escritório da Usina, onde também trabalhava meu pai, ambos na função de contadores.

Nunca mais esqueci esse fascinante relato dito pelo Luiz, e na época fiz um relatório da observação, que, infelizmente, ficou incompleto. Assim, os discos voadores sumiram na espessura da noite, e o meu gibi ─ ah, o meu gibi! ─ desapareceu nas suadas mãos do Luiz!... Já sei! Você aí deve estar encucado: “’Suadas mãos’?! Como assim, ’Suadas mãos’, Wenilton?!” Pois bem. Quando emprestei o gibi ao Luiz, antes de pegá-lo, ele tirou um lenço do bolso e limpou o gibi, digo, as mãos...

─ Nossa! Não precisa esse cuidado todo não, Luiz! E, pelo que vejo, suas mãos estão limpas.

─ Wenilton, meu caro Wenilton... mas acontece que eu tenho Hiperidrose e... Interrompi:

─ Hiper o quê, Luiz?

─ Hi-pe-ri-dro-se.

─ Ãnnn... Mas o quê é isso?

─ Na verdade se chama Hiperidrose Palmar. É um distúrbio glandular, uma sudorese que... Interrompi...

─ Sudo quê?

─ Su-do-re-se.

─ Ãnnn... Mas o quê é isso?

─ É um suor anormal que acontece nas mãos. Por causa disso, tenho de andar com um lenço no bolso direto, cara!

─ Nossa, eu nunca vi isso!

─ Nem eu!...

─ Pelo jeito, Luiz, você é o tipo de pessoa que ninguém precisa molhar as mãos, né?...

─ Há, há, há!...

─ Cara, tem dia que se eu recolher o suor que sai destas mãos, acho que chega perto do que eu recolho com a proveta lá no pluviômetro quando chove muito!

─ Ô, loco, Luiz, não exagera!


─ Sim, sim, eu estou brincando, Wenilton...

O Luiz era uma figura! Tinha um jeito de andar muito seu, e seria totalmente seu se não lembrasse o andar daqueles personagens do Robert Crumb, dos de Keep on Trucking, aquelas figuras geniais que encantaram legiões de leitores. O Luiz, tipo que, se desenhado por Crumb, não faria feio na capa de Cheap Thrills da Janis Joplin!...


O pequeno Sinfrônio...

Sinfrônio e o Chico Anísio
Meio do dia se aproximando. Enquanto o ônibus não vinha, fiquei ali num dos bancos em frente ao Grupo Zurita, folheando o gibi, e me esbaldei com os casos ufológicos. Lá pelo final do gibi, a surpresa:

─ Caramba! Já em 1957 discos voadores apareceram aqui em Mogi Mirim!

Mal o Miltinho Pereira me viu ali no banco da praça lendo o gibi, já veio me zoando:

─ Você sentado aí nesse banco lendo, Wenilton, tá parecendo o Sinfrônio do A Praça é Nossa. Só falta o chapéu!

─ Cara, meu pai me disse a mesma coisa agora a pouco! Mas eu rio muito com Walter D’Ávila nesse quadro! Acho ele um barato! Só que hoje eu não estou com um livro, mas com um gibi, né, Miltinho!

─ Mas não vai falar as palavras erradas como ele, vai Wenilton?

─ Não, não. Nas aulas aí no Zurita eu leio texto em voz alta com perfeição.

─ Sumemo, Sinfrônio!

Muito provavelmente, amigo, você não se recorda do Sinfrônio, mas ele era aquele cômico personagem que, sentado solitário num banco, lia os livros mudando o som ou acentuação das palavras, dando-lhes outros significados geralmente completamente errados.


Á direita, o Miltinho, em sua casa na Usina Palmeiras
─ Não vai me apelidar com esse nome, né, Miltinho?!

─ Não, não, Wenilton. Mas, afinal, o que você está lendo aí? Dexover... hummm... discos voadores... super-heróis... muito bom! Leitura precoce, hein!

─ Precó o quê, Miltinho?

─ Pre-co-ce.

─ Ãnnn... E o quê... Ele me interrompeu...

─ Eu quis dizer que acho que você é muito novo para se interessar por esses assuntos, principalmente discos voadores. Não é todo dia que a gente encontra um menino que gosta dessas coisas!

─ Obrigado, Miltinho, mas desde que começou a passar a série Os Invasores, eu comeceia gostar de discos voadores.

─ Legal, essa série. Ver TV é bom, mas ler é melhor ainda, né?

─ Gosto de livros desde que aprendi a ler, aos 7 anos.

─ Então quer dizer que desde o sete você já caminhava sozinho pelo reino encantado dos livros?

─ Pois é, Miltinho: quem não é o maior, tem de ser o melhor!...

─ Há, há, há, a frase da propaganda da Atlantic! Só você mesmo, Wenilton! Mas, meu amiguinho, estudar já é bom, e estudar sem ninguém mandar, por gosto, é excelente! Você não viu o que Jarbas Passarinho falou hoje na TV?

─ O que ele falou?

─ Que de cada mil alunos que começam no curso primário, apenas 35 chegam no secundário e só 11 chegam às universidades.

─ Caramba! A coisa está preta, hein!

─ É a tal de evasão escolar! Mas, estuda mesmo, Wenilton, manda brasa! Você não tem nada a perder!

─ Mas, Miltinho, quanto ao tal de Sinfrônio, eu tenho um tio muito engraçado, o Franzoni, que...

─ Frã o quê, Wenilton?

─ Fran-zo-ni.

─ Que nome!...

─ É sobrenome, Miltinho...

─ Viche!

Palhaço Pimentinha
─ Mas, então, o Franzoni tem algo dele, e toda vez que eu vejo o Sinfrônio na TV, eu me lembro desse meu tio.

─ Sinfrônio, Franzoni... até os nomes são meio parecidos, né, Wenilton?

─ Podes crer!

─ Na aparência ele lembra o Sinfrônio, mas na voz, acredite, parece o palhaço Pimentinha!

 ─ Aquele que faz dupla com o Arrelia?

─ Esse mesmo!

─ Então, com todas estas semelhanças, o seu tio só falta ser um cara engraçado?

─ E é, Miltinho, muito engraçado e sarrista! Eu rio muito com ele!


Ontem, quando eu era jovem

O campanário da Matriz à esquerda
Súbito, um badalar de sinos fez minha cabeça girar ─ era um toque diferente ─ nunca havia ouvido igual ─ bem mais musical e ritmado. Em pé, me voltei para o campanário da Matriz para ouvir aquilo. Lá dentro, por uma das janelas laterais, se via a cabeça do sineiro, parecendo parado demais para quem estava a tocar sinos daquele modo.

─ Peraí, Miltinho.

─ O que foi?

─ Ouça isto.

Após ouvir aquela belíssima cavatina ecoando pelos ares da praça, fiquei louco para ir até o campanário e ouvir de perto.

─ Miltinho, depois a gente se vê lá no ônibus!

─ Falou, Sinfrônio!

Rindo, dei-lhe o troco...

─ Ô, Miltinho, sabe quem você me lembra?

─ Quem?


─ O Bocinha, aquele personagem hippie da tirinha do Pafúncio e da Marocas, publicado na Folha de São Paulo.

─ Há, há, há!... Caramba, Wenilton: você me acha um bicho-grilo que nem ele?!

─ A cada dia que passa, com essa barbona, você vai ficando meio que do jeito dele.

─ Ah, mas ele usa aquela barba igual ao líder da banda Mungo Jerry, só no queixo e nos lados. Eu uso bigode também.

─ Mungo Jerry?

─ Sim, o Ray Dorset.

─ Não conheço.

─ Tem uma música linda deles explodindo aí nas rádios, só que eu não sei o nome...

─ Miltinho, dá um tempo aí; depois eu volto.

─ Falooou, Sinfrônio!

*   *   *

Quando o dobre parou e o sineiro desceu pela escada, fui até ele e tasquei:

─ Legal o som do sino maior, hein, moço!

─ Sim, mas quanto maior o sino, mais belo é o canglor.

─ Cã o quê?

─ Can-glor.

─ Nossa, nome bonito, mas o que é isso?

─ Penso cá comigo que sino comum faz dobre, som magro, mas sino grande faz clangor, aquele som grave e solene.

─ Nossa! Clangor: gostei dessa palavra... clan-gor.. parece palavra de gibi de super-herói, do Thor.

─ O do martelo?

─ Sim.

Barão de Tatuí
─ Mas esse sino aí foi doação de um barão aqui de Araras, homem que ninguém mais fala nem lembra!

─ Que barão?

─ O barão de Tatuí.

─ Barão de Tatuí?! Que nome!... Mas não vai falar que é sobrenome, vai?

─ Não, não ─ Tatuí é o nome da cidade de onde ele veio.

─ E eu que pensava que só tinha dois barões aqui na cidade: o de Araras e o de Arary. Pelo menos é o que a professora aí do Grupo Zurita falou para nós.

─ Quase todas as grandes fazendas cafeeiras de Araras tinham barões, mas, geralmente, ao contrário dos barões de Araras e o de Araras, eles não viviam aqui.

─ É? Não sabia!

─ Num sei não, menino, mas acho que Araras tinha pelo menos uns 10 barões. Foi Oscar Ulson que me disse isso. Aliás, o Oscar, ouvi dizer que está nas últimas e dessa noite não passa! (Ele faleceria no dia seguinte).

─ Quem é Oscar Ulson?

─ Ele é historiador e advogado. Se ele falecer, vai ser uma grande perda para a cultura de Araras. Dizem que ele é o maior historiador da cidade, o que foi mais fundo. Só que se ele falecer, eu não vou poder tocar o sino no féretro dele.

─ Porquê?

─ Ele é ararense, mas está morando na cidade de Leme. Mas voltando ao assunto, o Oscar disse que tinha também o Visconde de Nova Granada e...

─ Bonito nome: Nova Granada!

─ Sim, e tinha também dois condes: o conde Silvio Álvares Penteado ─ que deu de presente para Araras a Fonte Luminosa aí da praça ─, e o conde Rovazenda.

─ Ro Fazenda?! Que nome!

─ Não, menino: é Ro-va-zen-da, com “v”.

─ Ãn... Mas não vai falar que é sobre...

Ele interrompeu:

─ Sim, Rovazenda é sobrenome...

─ Lamordedeus, moço, que sobrenome!

Oscar Ulson
─ Araras era a Terra dos Barões, mas sobre o barão de Tatuí, o Oscar disse também que em 1907 ele mandou vir da Holanda esse sinão aí, e o bichão foi transportado da estação até aqui para a igreja num carro de boi com uma parelha enorme.

─ Nossa, então ele deve ser pesado prá caramba!

─ Põe aí uns 500 quilos!

─ Nossa, uma tonelada!

─ Procê ver!

─ Mas, porque você tocou o sino daquele jeito tão diferente?

─ Esse é um toque fúnebre, e ele é tocado quando morre alguém. Quando o féretro passa com o defunto em frente à igreja, eu toco esse dobre.

─ E quem foi que morreu hoje?

─ O senhor Mário Dávolos. Conhece?

─ Sim, sim. Ele era amigo do meu tio Sinfrônio, digo, Franzoni, e também amigo de meu pai.

─ Ele morava ali perto da loja Sogra Som.

─ Sim, sim, aliás, eu estou aqui na cidade por causa dele. Meu pai queria que eu fosse no enterro, mas eu não quis ir.

─ Porque não?

─ É porque eu não gosto de velório e enterro, e muito menos de ver defunto.

O Celso Luiz Barbosa
(Vale lembrar que, nestes tempos pueris, o que me metia mais medo era a morte em si, e não bem o jeito de morrer, como aconteceu depois).

─ Bom, pelo menos você ouviu o dobre fúnebre pela alma do Dávolos, né? Tá  perdoado, então, menino! No que disse isso, tirou um radiozinho do bolso, e o ligou. Uma música nova rolava.

─ Nossa! Olha só: era justamente a música que eu queria a ouvir!

─ Que música é, Seu... Seu... ah, me desculpa, mas qual teu nome mesmo, moço?

─ Celso, e o teu?

─ Wenilton, com “w”.

─ Nome diferente, hein, e com “w” ainda por cima! ─ e num inglês meio estropiado, ele falou: Esta música aqui é “Yesterday when I was young”, com o grande Charles Aznavour!

─ Vamos ouvir.



Quietos, ficamos a ouvir a canção. Ao final, eu disse:

─ Mas, Seu Celso, eu gostei mais da música que o senhor fez com sino agora há pouco do que essa.

─ Pode me chamar de Senhor, mas não espere de mim nenhum milagre...

─ Ãh?

─ Brincadeira, mas We... We...

─ We-nil-ton.

─ Sim: Wenilton. Obrigado pelo elogio, mas, você tem razão: esse dobre de sino é muito bonito, e, por sinal, é o que eu mais gosto.

─ Demais mesmo!

─ Mas não precisa me chamar de Senhor nem de Seu, que eu tenho só 18 anos, viu.

─ Tá bom: Celso, então.

─ Mas, então, Wenilton, lembrando do Mário Dávolos, que azar, hein?

─ Azar porquê?

─ Oras, ele não vai poder assistir a Copa do Mundo agora em julho!...

─ É meeeemo!

─ A vida é assim...

─ Mas, eu ainda acho que ele seria mais azarado se não pudesse ter visto o homem chegar na Lua o ano passado, não é? Eu mesmo ficaria mais triste se perdesse a chegada na Lua do que a Copa do Mundo.

─ Eu gosto de futebol, mas você tem razão: Copa do Mundo tem sempre, mas ir à Lua...

─ E por falar nisso, ei vi a capa da revista Manchete desse mês, e ela veio falando do acidente com os astronautas da Apollo 13 no dia 13 de abril do mês passado, quando deu uma explosão na nave e eles tiveram de voltar pra Terra sem poder pousar na Lua.

─ “Houston, temos um problema”

─ É, Celso, foi essa frase que um dos astronautas disse!

─ Que coincidência, hein, Wenilton: Apollo 13 e dia 13. Só faltou ser sexta-feira...

─ Não sei que dia da semana era.



─ O que eu achei mais incrível foi a coincidência do filme “Sem Rumo no Espaço” com o acidente da Apollo 13.

─ Porquê, Celso.

─ No filme, que é do ano passado, a nave espacial com três astronautas sofre um problema grave e fica perdida no espaço sem propulsão, mas eles foram resgatados pouco antes que o oxigênio e os mantimentos acabassem. Já no acidente da Apollo 13, uma explosão impediu eles de pousarem na Lua, e tiveram de retornar, mas tiveram um monte de problemas com oxigênio, eletricidade e água. Cara, esse filme parece quase uma premonição do que ia acontecer com a Apollo!

─ Caramba, Celso; podes crer!

─ Mas esses três astronautas foram mais infelizes ainda que o Dávolos, né Wenilton.

─ Porquê?

─ Oras, o Dávolos não pode ver a Copa, e os astronautas morreram na praia: chegaram até lá na Lua mas não puderam pousar...

─ É meeeemo!

Na esquina, o açougue do Tico Floriano.
Nisto, o Tico Floriano do açougue da esquina ia passando, e o Celso o cumprimentou:

─ Fala, Nino!

Estranhando o cumprimento, o Tico parou e indagou:

─ Por que “Nino”? É Tico, e não Nino o meu apelido!

─ Me referi ao Nino da novela “O Italianinho”, que é um açougueiro...

─ E eu lá assisto novela, Celso!

─ Há, há, há!...


Os tempos são outros...

Dodge Dart 1970
Mas, sobre o toque fúnebre, era de uma beleza pungente, e ainda hoje, passados tantos anos, seus dobres parece que ainda ecoam aqui dentro da memória... Apesar de envolver três sinos, não era algo que soasse como o som de carrilhões. Chamavam-no também de “dobre a finados”, e dizem os entendidos que é um conjunto de toques duplos que a igreja dava para informar à aldeia do enterro de uma pessoa. 

─ E o senhor toca muito bem os sinos, viu!

─ Obrigado!

Súbito, passa um carro novo com um ronco lindo, e no rádio, rolando o novo sucesso do Roberto Carlos: “As curvas da Estrada de Santos”!...

─ Alá: lá vai o Tião Mazon e seu Dójão!

─ Que carro é esse, Celso?

─ O novo Dodge Dart, carro que atinge 100 quilômetros em 12 segundos! Também pudera: é 198 HP!

─ Uau! Mas, falando nisto, Celso: você foi assistir o novo filme do Roberto, o "Ritmo de Aventura"?

─ Fui escondido...

─ Escondido?! Como assim?!

─ É porque o monsenhor Quércia me proibiu... sacumé: ele é bem conservador... ele queria que eu só assistisse "Os Dez Mandamentos"...

─ Hi, hi, hi!...

─ O Quércia não gosta de carros, e só anda a pé... O homem, quando sai para passear chega a entrar em órbita da praça!... Quanto ao Mazon, dias atrás ele deixou o carro dele com o vidro aberto em frente ao banco Brasul, e dois meninos roubaram a carteira dele do porta-luvas.

─ Que meninos?

─ Dois pestinhas que vivem atormentando o centro da cidade: o Bilu e o Pinico. Esses dois são piores que aqueles dois adolescentes que eu assisti no filme “O Incidente” aí no Cine Araruna ontem!

─ Não conheço eles.

─ Melhor não conhecer mesmo...

─ O quê que você está lendo aí, Wenilton?

─ Esse aqui é uma revista sobre discos voadores e esse outro é um gibi do Homem de Ferro e o Capitão América.

─ Legal esses gibis de super-heróis, né? Muito bem desenhados.

─ Eu gosto muito do Homem Aranha. O último que eu comprei, eu emprestei para o meu amigo Lolô, colega de classe aí do Grupo Zurita, e deu o que fazer para ele me devolver!

─ Ah, então você emprestou o gibi para o meu xará!
Celso "Lolô" Orpinelli

─ Porque “xará”?

─ Eu conheço o Lolô, e ele também se chama Celso...

─ Ah, é: Celso, Celso Orpinelli!....

─ Esse mesmo, Wenilton!

─ Eu tenho um primo chamado Celso, que mora em São Paulo, e na Usina outro, um amigo, o Celso Domingues, vizinho meu.


*   *   *

O Celso no interior da Matriz
Lembrando hoje, diria até que o sineiro Celso, como o antigo e famoso sineiro da Notre Dame de Paris, “fazia um só corpo, ele e o sino, e voavam juntos”, como bem colocou o Machado de Assis. Também, não posso afiançar ─ pois, naturalmente, não o ouvi  ─ se o Celso era tão bom quanto o exímio sacristão Ítalo Brasilino de Viterbo, que segundo o cronista ararense Maria Lúcia, era “o nosso tocador de sinos, lá pelos idos de 1907”. Depois veio o sineiro Peixoto, mas aí já é outra história.

─ Mas então, Wenilton, quer dizer que você não gostou da música que tocou no rádio agora? Você, como todos os meninos, devem gostar de rock, dos Beatles, desses sucessos deles que estão tocando aí nas rádios, como “Hey Jude” e “Let it be”…

─ Gostei sim, da música, mas também gosto dos Beatles.

─ Eu também gosto muito dos Beatles. Quem não gosta, né? Mas, me diga uma coisa: você estuda aí no Zurita?

─ Sim. Tô no terceiro ano.

─ E essa caneta aí no teu bolso? E aquela nova que lançaram?

─ Sim, a Bic.

─ “A caneta que faz clic”?

─ Isso! Mas eu não achei ela bonita não ─ é meio boko moko...

─ Eles querem inovar e fazem uns desenhos sem graça de caneta.

─ Gostei dessa calça jeans que você está usando aí, Celso!

─ É a nova calça que lançaram, a Topeka!

─ Ah, essa é a famosa Topeka da TV! E é calça boa, Celso?

─ Se é da Alpargatas ─ aquelas que faz chinelos ─  deve ser bom. Pelo menos deve ser melhor que as Rancheiras da vida...

─ Se ela aguentar o tranco lá no tobogã do lado do Lago Municipal, beleza, né.

─ Já estou meio velho para andar de tobogã...

*   *   *

─ Sabe de uma coisa, Celso: parece que eu não vi o folheto fúnebre do Seu Mário pelas ruas da cidade.

─ Ih, Wenilton, isso aí está acabando aos poucos.

─ Nem mesmo o radialista Pinheiro Alves pode anunciar a morte dele!

─ Porquê?

O extinto folheto fúnebre

─ Ele está bastante doente! Espero não ter que anunciar por esses dias a sua morte com mais um dobre desse... Mas quanto às coisas que vão se acabando, logo, logo ninguém faz mais! Nem velório em casa eles andam fazendo ─ aqueles lances de cortina preta na porta, círios acesos ao lado do caixão, e se bo...

─ Círios!

─ Sim, aquelas velas finas e compridas.

─ Ah, sim. É que parecia o nome de uma estrela que eu conheço.

─ Se bobear, eles acabam também até com as coroas de flores. A tradição em Araras está morrendo. Tudo muda: antigamente, antes da luz elétrica, um homem ia de poste em poste acender os lampiões da praça, e, não vai demorar muito, as luzes vão se acender sozinhas ─ escuta o que eu estou dizendo! Um dia, ninguém tocará mais sinos e as máquinas farão esse trabalho!...

─ Caramba, você acha isso mesmo?! Triste, né Celso... mas, vem cá: se você é sacristão, porquê não usa batina?

─ Tô te falando, Wenilton: os tempos são outros...

Súbito, no rádio começou uma música com um refrão contagiante.

“Na-na-ná-na,
Na-na-ná-na,
Hey, hey, hey,
Good Bye!” 

─ Uau! Conheço essa música, Celso. Legal, hein!

─ Sucessão, da banda Steam!


Despedi-me dele.

─ Ah, Wenilton, outro dia eu toco de novo aquele dobre para você ouvir!

─ Que dia?

─ Quando morrer alguém, uai!...

─ Ãnnn?!


Um menino sineiro, futuro roqueiro...

Ricardo, Wenilton, Humberto e Zizinho, março-abril de 1976
No ano seguinte, digo, 1971, um novo coroinha chegava à Matriz, no que viria a ser mais um discípulo do sineiro Celso Luiz Barbosa (este era seu nome de batismo), com o qual aprendeu todos os toques, um menino que se tornaria amigo meu cinco anos depois.

Seu nome: Ricardo Corrocher, jovem que também veio a se tornar rockeiro e baterista como eu. Porém, ele tinha uma vantagem sobre mim: também era sineiro... E uma desvantagem também: já naquele tempo, ele encanou que eu, meu irmão e o Marcelo Aragão éramos usuários de uma tal erva que hoje estão querendo liberar... Até hoje me pergunto: o que levara o Ricardo a pensar que éramos “droguers”? Seria o simples fato de sermos rockeiros? Nossa aparência, os jeans ainda com a indefectível boca-de-sino, a juba já meio grandinha, uma ou outra camiseta com temática rockeira etc.? Olhos vermelhos, fala pastosa e gírias? Em hipótese alguma, embora “bicho” ─ talvez a principal gíria hippie, assim como “podes crer” ─ era comum no linguajar do Marcelo. Não sei dizer, mas a gente ria na época quando ele nos dizia isso, e hoje acredito que se devia ao fato de sermos contumazes zoadores, sarristas e bagunceiros o que o levava a pensar tal disparate.

O Marcelo Aragão
Me lembro quando o conheci: era férias, ali pelo mês de janeiro de 1976. Estávamos reunidos na Sonzão, a loja de discos da família do Marcelo. Neste dia ali na loja, na companhia destes dois e de meu irmão Weber, passamos a tarde curtindo dois novos lançamentos (e que lançamentos!): os discos “Falso Brilhante”, da Elis, e o “Novo Aeon”, do Raul. O Weber, como era do seu feitio, sempre encasquetava com uma música ou outra, e após ouvir várias vezes “É Fim de Mês” do Raul, encanou com o tal de “tumbão”...

─ O que é tumbão? O Marcelo respondeu:

─ É tumba, caixão.

─ Caixããão!

─ Caixão de defunto, bicho!

Interferi:

─ Cara, não fala disso perto de mim!

─ Oras, porquê?

Com ambas as mãos estendidas em frente ao rosto do Marcelo, desenhei com os polegares e os indicadores em “c” uma tela virtual nos ares, soletrando:

─ Eu não gos-to de ve-ló-rio e en-ter-ro, e mui-to me-nos de ver de-fun-to!

─ Eu sei: você só gosta de aviões, astronautas, discos voadores, né ─ emendou o Marcelo, no que o Weber completou:

─ ...e de viver no mundo da lua...

O Ricardo riu.

─ Calem-se paspalhos, estou farto de ouvir suas lamúrias!

─  Você anda assistindo muito Os Três Patetas, hein!

─ Três Patetas são vocês! Desconversei:

─ Mas, Ricardo, você também curte rock?

─ Muito! E gosto de bateria pacas!

─ Que coincidência: eu também! Mas você toca bateria?

─ Bateria não. Toco instrumento de corda...

─ Nossa, você toca guitarra?!

─ Não, não, Wenilton: eu toco sino...

O Weber
─ Há, há, há!... ─ gargalharam o Weber e o Marcelo.

─ Não estou falando: são Três Patetas mesmo!...

─ Eu sou sineiro lá na Matriz, Wenilton.

─ Olha só: um sineiro roqueiro!

─ Há, há, há!... ─ gargalhou o Weber, e emendou:.

─ Por acaso, Ricardo, não foi você quem tocou aquele sino na música “O Patrão Nosso e Cada Dia” do Secos & Molhados?

─ Quem me dera, Weber!

Me dirigi ao Carioca, que era como o Weber chamava o Marcelo:

─ Marcelo, estive olhando as letras desse disco do Raul e reparei que, desta vez, ele não falou em discos voadores.

─ Cara, você só pensa nisto: quando não está pensando em aviões, está pensando em foguetes, astronautas e discos voadores!

─ Já disse, Marcelo: esse meu irmão vive no mundo da lua... ─ emendou o Weber.

─ Há, há , há!... emendei com um sorrizinho sem graça, fazendo cócegas no sovaco...


Mestre e discípulo, dois religiosos tão dispares...

O Monsenhor Quércia
Mas e quanto ao belíssimo dobre fúnebre, “Que fim deu?”, perguntarão os curiosos leitores. Pois bem: segundo o Ricardo Corrocher, a última vez que tocaram esse dobre foi por ocasião do falecimento do monsenhor Paschoal Francisco Quércia Sobrinho, pároco da Matriz, em 12 de fevereiro de 1978, mas de acordo com o seu mestre, o sineiro Celso, foi na morte do padre Lanza, em 1984, em fevereiro também, mas no dia 8, de modo que esse dobre teve uma sobrevida de mais alguns anos ─ poupo-lhes os cálculos: seis anos. Mas, conservemos em mente que, assim como o Ricardo era discípulo do Celso, o Lanza era do Quércia ─ mas, nem tanto, que o primeiro pecava em alguns quesitos que este último reprovava, fato hei de dar ciência em breve (aguardem).

*   *   *

Lembro-me da última vez em que vi o monsenhor Quércia, em 1978, pouco antes de sua partida para o andar de cima. Numa noite de inverno, caminhava ele pela praça Barão, solitário, com seu indefectível batinão marrom-café que ia até os pés; braços para trás, mãos unidas nas costas, pensativo, meio cabisbaixo, já doente, e quiçá pensando que, em breve, deixaria este mundo, e que o Celso, naturalmente, num dobre fúnebre mais excelso que nunca, anunciaria aos quatro ventos de Araras que o seu estimado pároco não mais passearia pela praça... Lembro-me que era uma hora alta da noite, hora em que, normalmente, os padres já se recolheram. Que fazia ele, ali naquela noite quando eu me dirigia para um baile? Insônia? Vai saber...

Ao vê-lo aquele dia, andando mui lentamente, ri comigo pensando: “Nessa marcha-lenta ele não vai conseguir entrar em órbita em volta da praça como eu entrava em volta do coreto...”. Em 1964, um jovem da fazenda São Vicente até que tentou, e numa madrugada julina após a meia-noite, entrou no passeio interno da praça com seu charmoso Buick verde e, acelerando por ali, quase atropelou o guarda noturno!... Ainda bem que não era o Quércia, perambulando à desoras, tomado pela insônia!...

Uma coisa é certa: todos os padres, vigários, párocos, os religiosos enfim que passaram pela Igreja Matriz tinham, como se diz, um xodó especial pela Praça Barão ─ que dizem ser a maior do interior paulista ─, mas, que ararense não tem, não é, irmãos, digo, amigos?



A Praça Barão de Araras, a menina dos olhos

Desde os tempos da primeira praça, lá pelo final do século 19, quando lampiões de gás ainda iluminavam suas floridas alamedas, esta praça era o que Araras tinha de mais belo em sua região central, com a Matriz e o Fórum coroando o conjunto. Aliás, e é bem possível que, anos antes, em 29 de julho de 1969, o Celso também tenha tangido um dobre fúnebre pela alma do famoso Totó Torres ─ o último acendedor de lampiões de Araras ─, mas este, internado no Asilo Nossa Senhora da Aparecida, estava esquecido de todos, com exceção dos alunos do Grupo Zurita que, uma vez por ano, iam visitar os internos ali, e quem sabe se, numa destas visitas, eu não apertei suas mãos, aquelas mãos que, nos finais de tarde de outrora, ia pelas alamedas, de poste em poste, com sua escada, sua vara e seu lume encher as campânulas translúcidas com aquela luz vacilante que punha um toque de romantismo nas velhas noites ararenses.

O padre Lanza
Quanto ao Lanza ─ aquele padre bonachão que um amigo meu de escola, o cômico Silvio Salomão, imitava seus sermões com perfeição ─ aquela fala amiúde, amarrada e arrastada que só vendo, digo, só ouvindo... A memória oral não registra, se, como o Quércia, o Lanza padecia de insônia; mas se também sofria do mal, não ia ele perambular pela praça à desoras, que coisa mais interessante havia para se fazer nestes momentos, como veremos a seguir, principalmente se era um sábado...

Para a época ─ estávamos na virada das décadas de 1970-80 ─, até que era um padre bem “moderno”, o Lanza ─ o avesso do Quércia, reconheça-se... Lembro-me de tê-lo visto naqueles velhos bailes que aconteciam nos clubes Senap e Sayão, sempre de batina ─ igual ao do Quércia, porém... ─ fumando e... bebendo cerveja!... Por isso, era um verdadeiro barato esse padre ─ padre “prafrentex”, como se dizia. Ao que eu saiba, ninguém o criticava por isso ─ os tempos, como vimos, desde a aurora da década de 70 eram outros... Mas, sim, amigos, o Quércia era mesmo o avesso da Lanza ─ um padre radical, metódico, moralista e conservador, e uma historiazinha que ouvi sobre ele certa vez nos dá uma pequena amostra destas suas qualidades já não tão louvadas na época. Permitam-me contá-la.

Pois bem. Foi por esta época que se deu o caso que pretendo narrar. Num final tarde de verão, um domingo calorento logo após o Carnaval de 1981, acontecia a tradicional missa vespertina na Matriz. Estranhamente, a igreja se encontrava com as janelas fechadas, ventiladores desligados ─ tudo “abafado” demais ─, isto, mesmo com as três portas de entrada abertas. Como se a igreja estivesse cheia, como normalmente o é neste dia dominical, o calor se intensificava ─ parecia até difícil respirar. E o Quércia ali ─ com seu indefectível batinão marrom-café ─, rezando serenamente a missa como se problema algum não houvesse... Pouco antes do sermão, o Celso foi dar a ele um recadinho de pé de orelha, o de que os fiéis estavam reclamando da insuportável calor dentro da igreja. Ele se mostrou inalterável... Eis que chega a hora do sermão, e ele o inicia com as usuais temáticas religiosas, mas ao final, em memória ao tal recadinho, aproveita para fazer “o maior sermão”...

─ Vieram me ventilar aqui um recadinho em meus ouvidos agora a pouco, dizendo que a maioria dos fiéis está reclamando do calor insuportável que faz dentro desta casa...

Até então, ele falava como o Lanza, miudinho...

Pois bem. Mas, me digam uma coisa: porque quando todos estão nos carnavais dos clubes, os salões lotados, no Senap, no Sayão, todos pulando, dançando, rindo, cantando, enchendo a cara, trajando fantasias e máscaras, suando aos cântaros, ninguém reclama do calor?! (desnecessário dizer que o sermão morreu aqui...)

O que eu sei dizer é que a maioria abaixou a cabeça e não deram o menor pio dentro da igreja. Até hoje, ninguém sabe dizer se o que aconteceu nesta tarde foi coisa de caso pensado. Tudo leva a crer que sim, mas, e se fosse o padre Lanza que estivesse rezando a missa neste dia? Oras, oras!... Novamente desnecessário dizer, não é, amigos?...


OVNI, línguas de fogo e o padre anuviado...

Voltei a me encontrar com Lanza ─ o que se deu após a morte de minha mãe em outubro de 1981 ─, logo após um sonho estranho que tive dias depois. Vale lembrar que o mesmo padre, quase exatos 10 anos antes, havia celebrado a missa em que fiz minha Primeira Comunhão na Usina, mais precisamente em 12 de dezembro de 1971; mas, voltemos ao que interessa.

Pois bem ─ voltando (novamente) a falar de OVNIs... ─, esse padre me frustrara num dia à tarde, quando tive a intenção de lhe perguntar se haveria algum significado ou algum possível simbolismo naquele curioso sonho, em que uma língua de fogo desceu dos céus e arrebatou minha mãe, sonho este que remetia à um OVNI que vimos eu e ela uma certa noite no final de 1973, quando procurávamos o cometa Kohoutek pelo céu, história esta registrada no Volume VI desta série, no capítulo “O ‘MILAGRE’ DE LOURDES” (checa lá!).

Dizendo-lhe o motivo pelo qual o procurei, ele, infelizmente, após dar uma baforada de cigarro, me desiludiu dizendo desenxabidamente que o sonho não fazia sentido algum, que “Sonhos são sonhos e não querem dizer nada”... Indignado, tive vontade de lhe dizer: “Me desculpa, padre, mas o calor desta igreja nestas tardes de verão, bem como a fumaça deste cigarro e os vapores das cervejas que o senhor toma nos bailes da vida, acho que juntos estão te deixando com a cabeça anuviada!”...

Fim de baile...


Sineiros eletrônicos, a praga!

Sobre a criticada automação dos toques de sino a que se referiu o sineiro Celso, parece que, em tempos que já vão longe, o nobre Machado de Assis, num genial lampejo de premonição, vaticinou a praga, isto ─ pasmem ─ no distante 4 de novembro de 1900:                                                                                                                                                

“Ouvi muita vez repicarem, ouvi dobrarem os sinos da Glória, mas estava longe absolutamente de saber quem era o autor de ambas as falas. Um dia cheguei a crer que andasse nisso eletricidade. Esta força misteriosa há de acabar por entrar na igreja e já entrou (...).”

Curioso é que na Araras de outrora, muito antes da automação, o sino parecia funcionar como um galo de bronze: 18 anos depois da crônica do Machado, um cidadão ararense, que havia ido fazer um passeio pelos antigos e imensos campos da fazenda Santana, comentou, brevemente suas impressões na então “estrada mestra de Rio Claro “nas folhas do jornal Tribuna do Povo:

“Cantavam pelos quintais os galos, e o sino grande da matriz badalava sonoramente a 5 horas do sacristão Peixoto, enquanto eu varava já as alturas dos campos de São Joaquim, pela estrada mestra de Rio Claro.”

*   *   *

─ Ah, Wenilton, se bobear eles acabam até com os sinos!

─ Ô, loco, Celso, aí já é demais!

─ E pensar que em 8 de abril de 1888 esses sinos bimbalharam como nunca nesta terra!...

─ E que dia foi esse?

─ O dia da libertação dos escravos em Araras.

─ Ah, sim foi um mês antes do 13 de maio, né, Celso? 

─ Tá pur dentro, hein, menino!

─ É que dia 13 passado nossa professora aí do Zurita nos lembrou disso.

─ Ah é, estamos em maio.


O Bocinha e o Pafuncio, digo, o Sinfrônio...

O Bocinha e o Pafuncio
Mas, voltemos à praça Barão. Mal cheguei em frente ao Grupo Zurita, o ônibus da Usina estacionou. Todos subiram. Fui o último. E fui me sentar lá no fundo, onde se encontrava o Miltinho, e ele, com seu cabelão, sua barba e seu indefectível B & L ─ um hippie por excelência ─, me chamou:

─ Senta aqui no fundo, Sinfrônio, que tem lugar!

─ Falou, Bocinha!

O cômico leitor Sinfrônio
Rimos ambos, enquanto que ninguém entendeu nada...

O ônibus partiu.

*   *   *


Mal ganhamos a subida do Morro do Cuba, o motorista Lima ligou o rádio, e começou a tocar uma música com jeitão de bicho grilo.


─ Aí, aí, Wenilton! A música! ─ gritou o Miltinho.

─ Que música, cara?

─ A música de que eu te falei: a do Mungo Jerry!

─ Ah, sim. Vamos ao ouvir.

“In the summertime when the weather's high,
you can stretch right up and touch the sky,
when the weather's fine,
you got women, you got women on your mind.
Have a drink, have a drive,
go out and see what you can find.” 

Ray Dorset, da Mungo Jerry
Lançada no mês que se passa a presente história, esta era a canção que se tornara um dos maiores sucessos do ano: “In The Summertime”, mas, no Brasil, conhecida pela estranha tradução “Perdida no passado”...

─ Eu vi esta música na TV, e o cara tem uma puta costeleta, hein, Miltinho!

─ Podes crer, cara: é maior que a do Emerson Fittipaldi!

Com uma letra quilométrica e jeitão meio cômico, a canção no estilo skiffle bombou nas rádios brasileiras, e hoje há quem o compare a um precursor do super herói Wolverine (surgido em novembro de 1974), e outros ainda há que dizem sobre a velha canção do Ray Dorset ─ típico one hit man ─ que nem os Ramones vieram com uma letra tão "brilhantemente estúpida", o que não é motivo para deixarmos “In The Summertime” perdida no passado!...


In extremis, excelso Celso

O excelso Celso!
Tava matutando aqui: por quantos anos o Celso governou aquele campanário e se encarregou dos toques e dobres eu não posso afiançar; o que eu sei dizer é que aquele campanário era dele, e dali, solitário, com seus códigos sonoros, por anos a fio ele comandou a igreja, o povo, a cidade...

Disse-me ele que aprendera todos os toques: de falecimento de crianças e fiéis, de casamento, de Finados e demais festas e datas religiosas, dentre outros, por meio de uma simples fita cassete pertencente ao Monsenhor Quércia, fita esta que, infelizmente, se perdeu.

Mas, enfim, amigos, uma pergunta triste me vem à mente ao terminar este capítulo: “Celso, Celso, excelso Celso!... quem tocará, amigo, como bem mereces, o mesmo dobre fúnebre, que outrora soavas, quando você for prestar contas no além?” Será que, pelo menos, alguém irá rezar-lhe um sentido responso antes de sua partida definitiva para o cemitério, lugar “onde nunca jamais tocará sino de nenhuma espécie; ao menos, que se ouça deste mundo”. Ah, eu poderia dizer, amigos: “Oras, amigo, o tal sino automatizado se encarregará da tarefa!”, mas não, doce ilusão ─ inexplicavelmente, esse dobre inexiste na programação do acervo eletrônico da hoje moderna Basílica Matriz, que a fita do Quércia sumiu!...

*   *   *

A atual Basílica e seu campanário à direita
Recentemente, estive em Araras, e estando numa lanchonete ao lado da Matriz, súbito, um ruído áspero e incomodante cortou os ares enquanto o sino tocava! Pensei comigo: “Mas o que está acontecendo?! O que é isso?!” O barman esclareceu:

─ É o toque de sino automatizado com fundo musical aí da Matriz.

Me surpreendi, e disse rindo:

─ Caramba: pensei que era carro de rua com propaganda de som!...

Não me lembro que música tocava ao fundo, mas acho que era Ave Maria devido ao horário, mas era algo tão alto e incômodo naquele tipo de veiculação, que a coisa me cheirou a mau-gosto. Numa palavra: não aprovei. Uma trombeta da salvação soando o juízo final soaria melhor...

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* Este capítulo faz parte do  Volume 9 - School days ― abril de 1967 a abril de 1977". O livro está em processo de confecção sem prazo para lançamento.


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